Francine deu duas batidinhas leves na porta entreaberta, equilibrando a bandeja com o cuidado de quem serve chá da realeza.
— Trouxe um agrado da cozinha — anunciou, com um sorriso doce demais pra ser só simpatia.
Denise ergueu os olhos por cima dos óculos. Estava sentada atrás da mesa, concentrada em um amontoado de contratos, com uma pilha de correspondências ao lado.
— Isso tudo é gentileza demais vindo de você — respondeu, desconfiada, mas divertida. — Vai ver bateu a febre?
— A febre do altruísmo, talvez. Acredite, é grave.
Filipe, sentado numa poltrona ao canto da sala, soltou uma risada abafada.
Francine pousou a bandeja sobre a mesa com movimentos ensaiados, quase cerimoniais. O aroma do bolo logo invadiu o ambiente.
— Fiz questão de trazer. Vocês trabalham tanto… um bolinho ajuda a adoçar o dia, né?
— Ou disfarçar veneno — brincou Filipe.
Ela riu, mas seus olhos não riram. Eles estavam fixos na pilha de correspondências, mais especificamente no envelope cinza claro com o selo dourado da Montblanc discretamente posicionado por cima.
Conversaram por alguns minutos sobre nada — clima, fofocas leves, um comentário bobo sobre o sistema de irrigação do jardim que parecia ter vida própria.
Enquanto isso, Francine avaliava mentalmente a distância entre ela e a carta. Poucos passos. Um impulso e uma boa distração.
Mas não agora.
Ela se virou subitamente para Filipe.
— Vem comigo no jardim um minutinho?
— Tá querendo tomar outro banho, Francine? — ele provocou, erguendo uma sobrancelha.
— Não, por hoje já está de bom tamanho, mas é que… queria conversar algo particular com você.
— Particular? Comigo? Essa é nova.
Ele olhou para Denise, que continuava focada nos papéis, mas acenou com a cabeça, liberando o assistente sem levantar suspeitas.
Francine sorriu. Fase um concluída.
O jardim estava calmo, a noite começava a cair e as luzes estavam gradativamente se acendendo como se recepcionassem os dois.
Francine caminhava ao lado de Filipe, levando-o propositalmente até um dos bancos centrais — estrategicamente escolhido por ela por estar fora do alcance das câmeras.
Um detalhe que ele claramente não percebeu.
Assim que se sentaram, ela foi direto ao ponto, sem perder o charme.
— Filipe, você sabe que eu te amo, né?
Ele, distraído com a última fatia de maçã da bandeja que havia trazido do escritório, congelou. Arregalou os olhos como se tivesse engolido uma abelha.
— Como é que é???
Francine explodiu numa gargalhada tão sincera que até se curvou no banco, batendo a mão na própria coxa.
— Você é um anjo! — disse ela, quase cantando, enquanto o envolvia com os braços.
Foi nesse exato momento que o som de um carro se aproximando quebrou o clima.
O carro preto, elegante e silencioso, passou pelo portão da mansão e estacionou na entrada principal.
Francine o reconheceu na hora.
— Droga.
Ela se afastou de Filipe como se ele tivesse pegado fogo, ajeitando o cabelo com um gesto nervoso. Mas era tarde demais.
Dorian já havia descido do carro e os encarava com aquela expressão indecifrável que fazia o estômago dela revirar.
Ele caminhou até eles devagar, os olhos fixos em Francine, e quando passou por Filipe… simplesmente o ignorou.
Nenhum aceno, nenhum "boa noite", nada.
Francine, com seu sorriso desconcertado, tentou sustentar o olhar, mas ele já havia entrado na mansão sem dizer uma palavra.
Filipe permaneceu parado por alguns segundos, como se tivesse sido atingido por uma rajada de ar polar.
— Vai sobrar pra mim, né?
Francine soltou um risinho nervoso.
— Se servir de consolo… talvez não seja só pra você.

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