O celular vibrou sobre o criado-mudo, arrancando Natan de um sono leve. Ele estendeu a mão, ainda de olhos semicerrados, e deslizou o dedo pela tela.
"O dossiê sobre Francine está pronto. Que horas podemos nos encontrar?" — a mensagem do investigador piscava na tela, seca, sem cumprimentos.
Natan passou a mão pelo rosto, afastando o torpor da madrugada. Sentou-se na cama, já sentindo o leve aperto no estômago que aquela frase carregava. Pegou o celular novamente e respondeu:
"Café Le Jardin, às 9h. É perto do meu escritório."
Encostou-se na cabeceira, encarando a tela por alguns segundos, como se ela pudesse antecipar o que viria a seguir.
O banho foi rápido, mas não suficiente para lavar a inquietação que já se instalara nele.
Cada movimento era mecânico: vestir a camisa, abotoar, ajustar o relógio no pulso, enquanto a mente rodava como um projetor descontrolado, criando e descartando hipóteses sobre o conteúdo daquele dossiê.
No caminho para o trabalho, o trânsito parecia mais lento do que o habitual. As buzinas se misturavam ao zumbido constante de pensamentos.
Ele estacionou a algumas quadras do café, como se precisasse daquela curta caminhada para organizar o espírito.
Ao chegar, o cheiro de café recém-moído o envolveu, reconfortante e ao mesmo tempo incapaz de abafar o peso da expectativa.
Escolheu uma mesa no canto, de onde podia ver a porta. Pediu um expresso duplo e, enquanto esperava, passou o dedo pelo aro da xícara vazia, tentando não olhar para o relógio a cada trinta segundos.
Quando a porta se abriu e o investigador entrou, o coração de Natan acelerou como se estivesse prestes a ouvir um veredito.
Natan recebeu o envelope pardo pelas mãos do investigador como se fosse um artefato delicado, perigoso.
Não o abriu de imediato.
Passou alguns segundos apenas olhando para o lacre de fita adesiva, sentindo o peso simbólico do que estava prestes a descobrir.
Cada informação ali dentro poderia mudar não só a imagem que tinha de Francine, mas também o rumo dos próximos dias.
Quando finalmente puxou o papel para fora, fez isso com calma, quase cerimoniosa. As folhas se espalharam sobre a mesa, preenchidas com recortes de jornais, fotos impressas e anotações meticulosas.
— Comecemos pelos pais — disse o investigador, inclinando-se para frente. — Situação financeira… complicada, para dizer o mínimo. Vários registros de acusações de estelionato, golpes pequenos para sobreviver. Nenhuma condenação formal, mas… — ele fez um gesto com a mão, como quem indica que a ausência de provas não é sinônimo de inocência.
Natan absorveu as palavras em silêncio, o maxilar contraído.
— Eles vivem em outra cidade, bairro de reputação… duvidosa. Casas apertadas, ruas mal iluminadas. Nada que combine com a forma como Francine se apresenta por aqui.

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