Francine saiu apressada do café, o salto dos sapatos ecoando contra o chão de pedra da calçada.
A raiva ainda latejava em seu peito, como se cada palavra de Natan tivesse deixado uma marca em brasa.
O ar parecia mais denso, e ela precisava se afastar dali antes que a explosão dentro dela transbordasse de vez.
Seus passos eram rápidos, quase impacientes, mas havia uma firmeza neles: não importava o quanto ele tentasse envolvê-la de novo, ela não ia ceder.
Enquanto caminhava em direção à clínica odontológica, a lembrança do rosto dele calmo, quase sereno, como se tivesse pleno controle da situação, a irritava ainda mais.
"Quem ele pensa que é? Como pode falar em amor e, ao mesmo tempo, tentar me prender numa vida que nunca foi a minha?"
Francine apertou a bolsa contra o corpo, respirando fundo para não deixar que a raiva a cegasse.
Ao chegar, encontrou Malu na recepção, conversando com o dentista sobre os cuidados pós procedimento. Ela tentou esboçar um sorriso, mas a anestesia não deixou.
— Que bom que você já terminou! — Francine disparou assim que a viu. — Eu nunca mais saio daquela mansão sem meu Robin do lado!
Malu fez cara de quem nao tinha entendido absolutamente nada do que ela queria dizer com aquilo, e Francine tentou corrigir.
— Aconteceu uma coisa no caminho… depois eu te explico. — Sua voz soou tensa, quase seca, e Malu não precisou de mais para entender que havia Natan envolvido no meio daquilo.
Enquanto isso, do outro lado da rua, Natan permaneceu sentado à mesa, a expressão inalterada, como se nada do que tivesse acontecido fosse capaz de abalar seu centro.
Pegou a colher, mergulhou calmamente no sorvete que derretia devagar no pote de vidro e levou à boca, saboreando como se tivesse todo o tempo do mundo.
A cena contrastava com a tempestade que ele mesmo havia provocado minutos antes.
Um leve sorriso de canto se formou em seus lábios, e a voz baixa, quase como um sussurro para si mesmo, cortou o silêncio ao redor:
— Nao importa o que você acha, Francine. Quem disse que eu te dei opção?
O gelo do sorvete parecia não competir com o frio que havia nos olhos dele. Não era uma declaração de amor, mas uma sentença, um aviso silencioso de que, por mais que Francine gritasse sua liberdade, Natan ainda se via como peça central da vida dela.
E, naquele instante, a calma dele soava muito mais ameaçadora que qualquer fúria.
— Eu não quero isso! — exclamou, com os olhos faiscando, pronta para arremessar o presente na primeira lixeira que visse.
Malu segurou sua mão no mesmo instante, firme, impedindo-a:
— As flores, tudo bem, você já deu fim. Mas a pulseira? Nem pense em jogar fora, Francine! — sua voz saiu grave, quase autoritária. — Isso aí deve valer uns três salários. Se não quer usar, coloca na sua caixinha de Paris.
Francine respirou fundo, tentando organizar os pensamentos. Havia algo de sufocante naquele objeto, mas a lembrança de Dorian surgiu como um raio de esperança.
— Eu não vou precisar mais da caixinha de Paris, Malu. Dorian quer investir em mim… — sua voz tremeu, como se ainda estivesse aprendendo a acreditar nessa realidade.
— Mesmo assim — retrucou Malu, cruzando os braços. — Ninguém rasga dinheiro. Você não vai jogar isso fora, ouviu?
Francine hesitou, mas enfim guardou a pulseira dentro da bolsa, como quem sela um pacto consigo mesma.
— Tem razão… mas essa algema nunca mais volta pro meu braço.

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