E assim os dias passaram… dias que viraram semanas, e semanas que se transformaram em meses.
Todo e qualquer contato com Pérsia passou a ser estritamente profissional. Ela entrava em sua sala com relatórios em mãos, entregava análises detalhadas sobre os clientes, sentava-se ao seu lado para revisar contratos e mesmo assim, entre eles, não havia uma única palavra além do necessário.
Nenhum desvio. Nenhuma lembrança. Nenhuma brecha.
Era como se nada tivesse acontecido.
Mas havia acontecido e aquilo o corroía em silêncio, apesar do tempo.
O que mais doía em tudo aquilo era a maneira como ela conseguia ser fria. Como se ele fosse apenas mais um rosto entre tantos com quem ela precisava lidar. E, por mais que a vontade dele fosse atravessar aquela muralha que ela construiu entre os dois, o seu senso de respeito e talvez o medo de afastá-la de vez o mantinha imóvel.
Em mais uma noite, ao chegar em casa após um dia exaustivo, David tomou um banho demorado, na tentativa inútil de lavar da pele o peso que carregava por dentro. Depois, se sentou na cama, com os cabelos ainda úmidos e o olhar perdido no chão.
Era frustrante admitir, mas nos últimos meses, sua vida havia se resumido a ela.
Aquela mulher de um metro e cinquenta e cinco que apareceu em sua vida como quem não queria nada, mas ocupou tudo.
Tudo o que ele fazia, pensava ou decidia de alguma forma, acabava voltando para Pérsia. Como se ela tivesse se infiltrado no seu sistema, como um código impossível de apagar.
E ele não fazia a menor ideia do que fazer com aquilo.
Aquela sensação incômoda de ausência, o desejo reprimido, a frustração de não poder simplesmente resolver tudo com um gesto ou uma palavra. E justo ele, acostumado a ter o controle de tudo.
— Posso entrar? — A voz firme e cuidadosa do pai o arrancou do transe.
Ele ergue os olhos e vê Ethan parado à porta do quarto, com as mãos nos bolsos e o cenho levemente franzido.
— Claro, pai. Pode sim — responde, endireitando a postura como quem tenta afastar qualquer traço de derrota. Mas era exatamente assim que se sentia por dentro: derrotado.
Ethan se aproxima com calma, o olhar atento entrega como quem já sabe a resposta antes mesmo de ouvir.
— Está tudo bem com você? — pergunta, sentando-se ao lado do filho na cama.
— Estou, sim.
A resposta sai rápida, ensaiada. Mas os olhos… ah, os olhos não mentem. E Ethan os conhecia bem demais para ser enganado.
— Tem certeza?
David hesita por um segundo. Seu impulso é manter a pose. Fingir que está tudo sob controle. Mas a verdade é que estava perdendo o controle há meses, desde que aquela mulher cruzou a linha.
Ele apenas suspira, sem responder. E isso, para Ethan, já era mais do que suficiente.
— Quem é a sorteada? — Ethan pergunta com um leve sorriso no canto dos lábios, recebendo de volta o olhar arregalado do filho.
Visivelmente desconcertado, David franze a testa.
— Está tão na cara assim? — questiona, soltando o ar com frustração.
— Você não é do tipo que se fecha por qualquer coisa, filho — responde com simplicidade. — Então, não foi difícil perceber.
Pensativo, David esfrega a nuca, como se só de dizer o nome dela já estivesse abrindo uma ferida mal cicatrizada.
— O nome dela é Pérsia.
— Pérsia? — Ethan repete com curiosidade. — Nome forte… diferente.
— Não é só o nome — rebate com um sorriso breve, que não chega nem perto de alcançar os olhos. — Ela é toda diferente.
— E o que aconteceu entre vocês?

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