Pela manhã, David chega ao escritório com os nervos à flor da pele. Não dormiu direito e, por mais que tentasse, não conseguia tirar Pérsia da cabeça. Aquela estagiária, com seus cabelos cacheados e olhos desafiadores, estava atrapalhando sua paz.
— A Pérsia já chegou? — É a primeira coisa que pergunta, assim que se depara com sua secretária.
— Bom dia, senhor Smith. Sim, a senhorita Pérsia chegou há alguns minutos — responde com um sorriso profissional.
Ele lança um olhar rápido para a mesa onde ela deveria estar, mas o lugar está vazio.
— E onde ela está agora?
— No almoxarifado, organizando alguns documentos.
Ele respira fundo, já impaciente.
— Mande-a vir à minha sala. Imediatamente.
Sem esperar resposta, entra em sua sala, fecha a porta com mais força do que o necessário e caminha até a janela, tentando conter o sentimento que o dominava. Afrouxa a gravata e tira o paletó, sentindo o suor escorrer pela nuca, um contraste incômodo com o frio daquela manhã nublada.
Era ridículo estar assim. Mas o efeito que Pérsia causou nele definitivamente não era normal.
Ele se senta, liga o computador e tenta se concentrar em qualquer coisa que não tenha o nome dela. Abre relatórios, responde dois e-mails sem sequer ler direito e, por fim, solta um suspiro frustrado. Sabia que não conseguiria focar em nada antes de encará-la novamente.
Havia feito de tudo para se convencer de que a noite que passaram juntos não significou nada. Mas o problema é que significou e muito. E agora ela estava no mesmo prédio, provavelmente andando pelos corredores como se nada tivesse acontecido, e isso estava deixando-o louco.
Poucos minutos depois, ouve uma leve batida na porta.
— Entre — diz, endireitando-se na cadeira, com a respiração presa.
Pérsia entra. O cabelo preso num coque impecável, a camisa social perfeitamente alinhada e a expressão séria no rosto criavam uma versão dela que parecia ter saído diretamente de um manual corporativo. Não havia ali nenhum traço da mulher que dormiu em seus braços.
— Bom dia, senhor Smith. Mandou me chamar? — Ela pergunta com um tom educado, mas distante.
Ele tenta manter o controle e respira fundo.
— Sim. Feche a porta, por favor.
Ela obedece, sem pressa, e então permanece de pé, à frente da mesa. Ele analisa seus gestos, tentando entender como ela podia estar tão calma depois de tudo. Será que ela havia se arrependido?
— Pode sentar — indica com um gesto, tentando manter o tom neutro.
Ela puxa a cadeira e se acomoda. Coloca as mãos sobre o colo, em postura impecável, como se estivesse diante de um cliente importante. Aquilo o irrita mais do que deveria.
— Imagino que tenha me chamado para falar do relatório de San Diego — ela começa. — Devo informá-lo que já está finalizado. O senhor deve recebê-lo em seu e-mail ainda esta manhã.
— Pérsia…
— Se for sobre o orçamento da próxima fase da IronShield, também já deixei uma prévia pronta. Está na pasta compartilhada com a equipe de TI.
Impaciente com a indiferença dela, ele fecha o notebook com força, fazendo um estalo ecoar pela sala.
— Pode parar com esse teatro, por favor?
Ela ergue uma sobrancelha, mas não perde a compostura.
— Que teatro?
— Você sabe muito bem.
Ela cruza as pernas, lentamente, e o encara.
— Estamos no ambiente de trabalho, não sei do que o senhor está querendo falar, senhor Smith.
O jeito como ela pronuncia seu sobrenome, com aquela entonação provocadora e distante ao mesmo tempo, faz seu sangue ferver.

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