Após ouvir o conselho do pai, David percebe que não podia mais esperar que as coisas se resolvessem sozinhas. E, no fundo, também não queria. Algo dentro dele havia mudado, uma urgência, uma coragem que há meses estava adormecida.
Ele pega o notebook que costuma usar para trabalhar em casa, acessa o sistema da empresa e localiza o endereço residencial de Pérsia. Sabe que aparecer de surpresa, ainda mais à noite, pode assustá-la. Talvez ela diga coisas que ele preferia não ouvir. Mas, ainda assim, estava disposto a arriscar. Depois de tantos meses de silêncio e autocontrole, a tortura emocional que se impôs só lhe prova uma coisa: ele não pode mais adiar o inevitável.
Assim que encontra o endereço e o número da casa, anota num pedaço de papel e o guarda no bolso. Depois, se veste depressa e sai de casa com passos apressados.
— Filho, aonde vai a essa hora? — a voz de Rafaela o surpreende no jardim, fazendo-o parar por um instante.
David se vira com um brilho diferente nos olhos.
— Vou atrás de uma segunda chance, mãe. Se tudo der certo, trago-a amanhã para jantar com a gente.
Surpresa com a ousadia do filho, Rafaela o encara por um momento. Então ela apenas assente e, com um leve sorriso, lhe transmite um olhar confiante de apoio.
— Vou torcer por você — diz ela, por fim.
David acena com a cabeça e continua seu caminho, sentindo o peito pulsar de ansiedade.
Enquanto segue as instruções do GPS, percebe que estava entrando em um bairro mais simples, de ruas estreitas e casas modestas. O contraste com a região luxuosa onde morava era gritante.
Quando entrou na rua indicada, desacelerou o veículo, olhando atentamente os números das casas. O coração batia forte pela expectativa de reencontrá-la.
Assim que encontrou o endereço, estacionou em frente à calçada e ficou alguns segundos parado, encarando a pequena casa à sua frente. O imóvel era simples, de pintura gasta e uma cerca de madeira que já tinha visto dias melhores. Ainda assim, havia luzes acesas e torceu para que ela ainda estivesse acordada.
Respirando fundo, desce do automóvel e caminha até a porta. Seus passos são firmes, mas por dentro estava em chamas. Toca a campainha.
A porta é aberta por uma menininha que aparentava ter uns cinco anos, com os cabelos presos em dois coques pequenos e olhos curiosos. Ela o encara dos pés à cabeça, como quem analisa se deve ou não confiar.
— Quem é, Isla? — Ouve a voz de Pérsia vindo do interior da casa.
— É um senhor bonitão! — a menina responde alto, como se estivesse descrevendo um personagem de desenho animado.
— O quê?! — Pérsia reage do outro cômodo, e segundos depois surge no corredor com um bebê no colo.
Quando seus olhos encontram David parado à porta, ela paralisa. Literalmente.
— Senhor Smith?
— Olá, Pérsia. Boa noite!
— O que… o que está fazendo aqui?
Antes que conseguisse responder, o bebê em seu colo, claramente desconfortável com a movimentação, começa a chorar alto. Ela tenta niná-lo com cuidado, mesmo com os olhos ainda arregalados de surpresa.
— Calma, meu amor… calma.
A situação é caótica: um bebê chorando, o chefe parado na porta da sua casa, e o nervosismo estampado no rosto de ambos. Tentando ganhar tempo e controlar o pequeno no colo, Pérsia fez um gesto para a irmã.
— Isla, pode fazer companhia para o senhor um minutinho, por favor?
— Tudo bem — a menininha responde prontamente.
Pérsia se afasta com o bebê para um dos cômodos. Restando apenas David e a pequena Isla na entrada, onde o ar entre os dois fica inesperadamente divertido.
— Oi! Eu sou a Isla — ela se apresenta com desenvoltura.
— Oi, Isla. Eu sou o David — ele responde, um pouco desconcertado, mas sorrindo.
— Você é amigo da minha irmã?
Ele hesita. Como explicar?
— Bem… sou o chefe dela.
Os olhos da menina se arregalam, impressionados.
— Nossa, que legal! — diz sorridente. — E o que isso quer dizer?
Se sentindo quase aliviado pela leveza da criança, ele solta uma risada curta.

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