— Pode me ajudar com aquelas caixas? — Estelle pergunta, ajeitando os cabelos presos de forma desajeitada enquanto segura a tampa de uma das caixas abertas no novo apartamento.
— Claro, amor — responde Mark com um sorriso carinhoso, já se aproximando para ajudá-la.
O novo lar dela ficava exatamente ao lado do dele, algo que parecia simples, na prática, mas que para Mark era quase simbólico: ela estava cada vez mais perto, não apenas fisicamente, mas da vida que ele sonhava dividir.
Eles passam as próximas horas montando móveis, encaixando prateleiras, carregando sacolas e rindo entre tropeços e instruções mal interpretadas do manual. Quando finalmente colocam o último parafuso da mesa de jantar, já passava de onze e meia da noite.
— Acho que já chega por hoje — Mark comenta, respirando fundo e limpando o suor da testa com a manga da camisa.
— Concordo. Estou exausta — ela sorri, sentando-se no chão com as costas apoiadas na parede.
— Vou pedir alguma coisa para a gente comer — ele diz, já pegando o celular.
— Tudo bem. Eu topo qualquer coisa que venha numa embalagem e não envolva cozinha hoje.
Rindo, ele faz o pedido e, alguns minutos depois, os dois estão sentados no tapete da sala, ainda sem sofá, dividindo uma pizza.
Depois da última fatia, Estelle se espreguiça, encostando a cabeça no ombro dele.
— Se não fosse o cansaço, eu continuaria até amanhecer só para ver isso tudo pronto — murmura.
— Eu também. Mas acho que nossos corpos estão dizendo que já deram o limite por hoje — ele diz, acariciando levemente o cabelo dela.
Ela levanta devagar e vai até a porta com ele. O momento da despedida é simples, mas tem um quê de hesitação.
— Boa noite, meu amor — ela diz, dando-lhe um beijo demorado.
— Boa noite — responde ele, com vontade de dizer “deixa eu ficar” — mas respeita o espaço, ainda que a vontade de permanecer seja grande.
Assim que entra no próprio apartamento, Mark se depara com o silêncio. Um contraste estranho depois das risadas, dos ruídos de caixas e parafusos e da presença viva de Estelle ao lado. Vai para o banheiro, toma um banho demorado e se j**a na cama, com o corpo exausto, mas a mente desperta.
Ficou ali, deitado, olhando para o teto escuro, ciente de que, do outro lado da parede, ela também estava provavelmente deitada, revivendo mentalmente cada momento daquela noite. A presença dela era como um eco na cabeça dele, e mesmo sem vê-la, ele sentia: ela estava ali.
Quase sem perceber, Mark se levanta. Pega o celular, digita uma mensagem e apaga. Depois outra. E apaga de novo. Até que decide não mandar nada.
Assim passaram-se alguns meses. Depois de tudo montado, Estelle e Mark começaram a alternar as noites entre um apartamento e outro, logo após o expediente de trabalho. Era quase automático: jantar, uma conversa longa no sofá e depois, a temida despedida no corredor. Mas a cada noite, ficava mais evidente o desejo silencioso de encurtar aquela distância final. Ainda assim, Mark queria fazer tudo da forma certa.
Numa dessas noites, estavam assistindo a um filme juntos no sofá da casa dele. Estelle, já aninhada sob uma manta, olhou discretamente para o relógio de parede.
— Acho que está na hora de eu ir — murmurou, levantando-se devagar.
Mark segurou sua mão antes que ela se afastasse.
— Por que a gente não se casa?
A pergunta pegou-a de surpresa como uma brisa inesperada. Ela o encarou, confusa.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Caminho traçado: Resgatada pelo inimigo