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Caminho Traçado - Uma babá na fazenda romance Capítulo 271

Quando saiu do prédio, sem sequer ter paciência para esperar o elevador, Eloá optou pela escada. Cada degrau parecia um golpe seco, abafado, como se o som ecoasse apenas dentro dela. Não queria correr o risco de Gael a acompanhar e despejar mais palavras que a deixassem ainda mais confusa, perdida… despedaçada.

Vestiu o vestido às pressas, mal-ajeitado no corpo e não tinha condições de ir para muito longe, pois não havia levado nem o celular, nem a bolsa. Estava ali, no meio da calçada, sentindo o vento frio bater no rosto, lembrando-a de como aquele dia havia se tornado o pior de sua vida. O mundo ao redor seguia em seu ritmo: veículos passavam, vozes se perdiam, passos apressados cruzavam com os seus. Mas para ela, tudo parecia distante, como se estivesse atrás de um vidro grosso, separada de qualquer vestígio de normalidade.

Caminhou sem destino, deixando as ruas decidirem o trajeto. Seus pés se moviam, mas a mente estava presa naquele apartamento, naquele momento em que tudo despencou de vez. As lembranças vinham em ondas, e cada detalhe, cada gesto, revelava-se sob uma nova luz cruel: ele havia planejado. Não foi um acaso, não foi impulso… foi premeditado.

O ar parecia mais denso e ela precisou parar por um instante, apoiando-se numa parede fria e úmida. Fechou os olhos, tentando conter o nó que se formava na garganta. Mas as perguntas eram muitas, e as respostas, todas elas, machucavam.

“Por quê?” — sussurrou para si mesma, como se pudesse arrancar do vento alguma verdade que fizesse sentido.

O sentimento de uso e de traição se misturava ao de humilhação. Não se lembrava de já ter se sentido tão pequena, tão descartável. Até aquele dia, acreditava que a vida já havia lhe mostrado os seus piores ângulos. Mas agora sabia que não! Havia sempre um abismo mais fundo esperando por ela.

Seguiu andando, tentando ignorar o frio que começava a congelar seus braços nus. Passou por vitrines iluminadas, pelas fachadas dos estabelecimentos cheios de gente rindo, como se o mundo não tivesse nada de cruel. E aquilo, de certa forma, a feria ainda mais. Como todos podiam estar tão bem, enquanto dentro dela tudo estava em ruínas?

O passo acelerou sem que ela percebesse, como se quisesse fugir não só de Gael, mas de si mesma. De repente, notou que já estava longe do bairro onde morava, em ruas menos familiares. Não querendo se perder pelas ruas, decidiu retornar, mas não para o apartamento. Preferiu parar próximo ao campus, sentando-se em um banco onde podia ver o movimento constante de pessoas passando. Tentou se distrair com aquilo.

Mas, quando a fome começou a apertar, percebeu que não poderia adiar para sempre. O céu já se tingia de tons alaranjados e, com a noite caindo, sentiu-se obrigada a voltar.

— Se ele tiver um pingo de noção, já deve ter saído de lá — murmurou, dessa vez decidindo pegar o elevador.

Ao chegar em frente à sua porta, parou. O coração disparou como se quisesse avisá-la de algo. Ficou ali por alguns segundos, indecisa, como se tivesse receio do que encontraria. Mas então, a raiva veio como uma corrente elétrica, percorrendo-lhe todo o corpo e substituindo a hesitação.

— Não sou eu quem deve sair daqui. É ele.

Girou a maçaneta e empurrou a porta. Assim que entrou, a cena congelou seu passo: Gael estava ali, sentado no pequeno sofá da sala, como se aquele fosse o lugar dele.

O olhar preocupado dele a encontrou imediatamente.

— Que bom que voltou.

— Essa é a minha casa, por que eu não voltaria? — rebateu com o tom seco, sem esconder a hostilidade.

— Eu fiquei preocupado… quando vi que o seu celular ficou aqui.

Ela sequer respondeu, atravessando a sala até a cozinha. O pedido de comida ainda estava sobre a bancada, intacto.

— Por que não foi embora ainda? — ela indagou, girando o corpo para encará-lo.

— Eloá, eu disse que não vou sair daqui até a gente se resolver.

— Me deixa pelo menos explicar… — tentou.

— Não quero explicações. Quero distância — ela disse, apontando para a porta. — Se ainda resta algum respeito em você, vai sair agora.

O olhar dele se manteve fixo no dela por um segundo a mais, como se quisesse atravessar todas as barreiras que ela havia erguido. Ainda assim, decidiu ser um pouco mais insistente.

— Quer dizer que preferia que fosse o meu irmão naquela noite? — perguntou, engolindo em seco, como se as palavras fossem amargas em sua boca.

Eloá sentiu o estômago revirar. Entreabriu a boca para responder, mas foi interrompida pelo que viu: lágrimas silenciosas deslizando pelo rosto dele. Aquilo a despedaçou por dentro, despertando lembranças que ela não queria enfrentar. Mas não podia baixar a guarda.

— Está com tanta raiva de mim que preferiria que essa filha que carrega fosse do Henri? — A pergunta veio com um peso que a desabou.

Ela ficou imóvel, sentindo o coração acelerar. Quis dizer algo, qualquer coisa, mas as palavras simplesmente não vinham. Havia um nó na garganta, um misto de mágoa, indignação e... medo.

Gael deu um passo à frente, olhando-a de um jeito que implorava por resposta.

— Porque… se for, juro que desapareço da sua vida para sempre.

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