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Caminho Traçado - Uma babá na fazenda romance Capítulo 272

O que responderia para ele naquele momento? A mágoa queimava por dentro, e poderia muito bem revidar com palavras afiadas, só para machucá-lo tanto quanto ele a havia machucado. Mas… valeria a pena?

Não queria vê-lo sumir outra vez, e, ao mesmo tempo, não suportava a ideia de tê-lo ali, tão perto, naquele instante.

Que droga de vida era aquela, em que tudo parecia se tornar mais difícil a cada dia que passava?

— Não acha que está exigindo respostas demais de alguém que acabou de descobrir tantas coisas de uma vez? — devolveu, encarando-o com a cabeça erguida, embora por dentro estivesse em pedaços.

Ele mordeu o lábio, como se quisesse segurar algo, e a expressão ansiosa denunciou o quanto estava lutando contra si mesmo.

— Me desculpe… — disse por fim, soltando o ar de maneira pesada. — Você tem razão. Eu não posso pedir que me responda antes mesmo de digerir tudo o que descobriu.

Houve um breve silêncio, até que ele continuou um pouco desesperado:

— Eu não quero te pressionar… nem posso. Não tenho esse direito. Mas é que… — fez uma pausa, como se as palavras lhe pesassem na garganta. — Estou desesperado. Tenho medo de que, se eu sair por essa porta, você nunca mais queira olhar nos meus olhos. E, para mim… isso seria pior do que a morte.

O peito dela subia e descia irregularmente, não apenas pela raiva, mas pela dor de ouvir aquelas palavras que vinham carregadas de verdade. Gael sempre foi intenso demais, e Eloá sabia que nada daquilo era encenação. Aquilo saía da boca dele, sim… mas nascia na alma.

— Gael… — ela começou, mas a voz falhou.

Ele ergueu a mão, como se pedisse para que ela não dissesse nada ainda.

— Eu sei que você me odeia por tudo. E tem razão. Mas… você não sabe o que foi para mim, estar perto de você naquela noite.

— Não comece com isso — cortou friamente. — Não tente transformar algo errado em uma lembrança bonita.

Ele inspirou fundo.

— Não é para justificar… é para dizer que, mesmo errado, foi real para mim.

Ela riu sem humor, balançando a cabeça.

— Você me destruiu, Gael. Essa é a diferença.

O maxilar dele se contraiu.

— Eu sei. E todo dia acordo me perguntando se existe algum jeito de reverter isso.

— Não existe — respondeu rápido, como se quisesse acabar com qualquer esperança.

— Claro que existe… — ele deu mais um passo —, eu vou me dedicar cem por cento a vocês. Vou fazer de tudo para a nossa filha ter o direito de conhecer um pai presente, um pai que não fuja, que não desapareça. Vou ficar com ela quando você precisar estudar, vou estar ao seu lado para cada dificuldade.

Sem querer encarar mais a cama, virou o rosto e foi para a pequena varanda. Enquanto observava o movimento da rua, seu olhar foi atraído para a pequena praça um pouco mais adiante. Havia um homem sentado no banco. Não conseguiu ver o rosto, mas pelas roupas, soube na mesma hora.

Gael não havia ido embora.

O vento gelado cortava a pele e ela sentiu um arrepio só de pensar no frio que ele devia estar sentindo ali.

— Por que não foi para o hotel? — sussurrou para si mesma, mantendo os olhos fixos. — Desse jeito, vai acabar adoecendo…

A preocupação apertou o peito, mas ela a empurrou para longe. Não era mais problema dela. Voltou para dentro, comeu um pouco mais e, por fim, deitou-se. Já passava da meia-noite.

Acariciou a barriga, com os pensamentos ainda presos à figura dele.

— Acha que devo perdoar o seu pai, Amelie?

No mesmo instante, a bebê começou a se mexer com força, como se respondesse.

— Sério que vai ficar do lado dele? — resmungou, indignada.

Levantou-se para beber água, mas, ao passar pela varanda, o instinto falou mais alto. Abriu a porta e olhou para a praça. Parte dela acreditava que ele já teria ido embora… mas lá estava ele, ainda sentado, imóvel, no mesmo banco, como se não tivesse a menor intenção de sair dali.

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