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Caminho Traçado - Uma babá na fazenda romance Capítulo 347

Quando chegou em casa, Catarina encontrou os pais sentados no sofá da sala, conversando. Assim que a viram, notaram o olhar um pouco perdido da filha.

— Aconteceu alguma coisa? — perguntou Damião, levantando-se.

— Não, não aconteceu nada — respondeu ela.

— Por que não veio para o almoço? — Ele insistiu.

— Não estava com fome… além disso, me entretive na casa e acabei esquecendo.

— Mas você comeu alguma coisa, minha filha? — perguntou a mãe, preocupada.

— Sim, comi, não se preocupem.

— Filha… amanhã sairemos cedo, o casamento está marcado para as dez da manhã.

— Está bem — respondeu, sem encarar os olhos do pai.

— Vou tomar um banho e descansar um pouco — disse, saindo pelo corredor.

— Não vai esperar o jantar? — perguntou Andrea.

— Não estou com fome — respondeu ela, fechando a porta do banheiro com força.

Quando voltaram a ficar a sós, Andrea olhou para o marido com uma expressão preocupada.

— Algo não está certo, Damião.

— Eu sei — respondeu Damião, ainda com os olhos fixos no corredor por onde a filha havia desaparecido.

— A Catarina não parece feliz desde que tudo aconteceu — comentou Andrea em voz baixa.

— Eu percebi… — ele suspirou, mas logo endureceu o tom. — Mas o que quer que façamos? Foi ela e aquele moleque que procuraram por isso.

Andrea hesitou, escolhendo as palavras com cuidado.

— Mas… e se ela não estiver querendo se casar?

O olhar sério de Damião voltou-se imediatamente para a esposa, cortante.

— Se ela não quisesse se casar, não devia estar por aí fazendo coisas erradas. Agora já está feito. O casamento será amanhã… e só não acontecerá caso algum deles morra.

As palavras duras ecoaram pela sala. Andrea sentiu o coração gelar diante de tamanha frieza. Queria contestar, queria gritar que aquilo não era justo, mas permaneceu em silêncio, engolindo as lágrimas que ameaçavam surgir.

No início, estava bastante chateada com a atitude da filha, mas logo se lembrou de que também já foi jovem um dia e que, assim como Catarina, havia tomado decisões erradas no passado. Por isso, decidiu não julgá-la mais, consciente de que o pai já estava sendo duro o suficiente para os dois.

Ainda assim, a cada dia que passava, via o brilho nos olhos da filha se apagando pouco a pouco. Aquilo lhe doía mais do que queria admitir. Percebeu, então, que algo não estava certo, que toda aquela pressão não ajudaria em absolutamente nada.

Tentava ser positiva, mostrar alegria, sorrir ao lado da filha, mas o esforço parecia em vão. Catarina havia se fechado em um silêncio profundo, e a cada dia parecia se perder ainda mais dentro de si mesma.

— Não devia dizer umas coisas dessas, ainda mais com a nossa filha em casa. Não tem medo de que ela o escute? — questionou Andrea, demonstrando que reprovava aquela atitude.

— Bem eu queria que ela escutasse — respondeu Damião, sem titubear, enquanto se jogava no sofá e pegava o controle remoto da televisão. — É bom que aprenda desde já que, como pai dela, não vou passar a mão em sua cabeça.

As palavras, ditas com tamanha frieza, fizeram Andrea estremecer. Ela o observou em silêncio, sentindo um nó na garganta. No fundo, sabia que a filha não precisava de mais dureza, mas de compreensão. No entanto, Damião parecia cego, preso à sua convicção de que apenas a rigidez poderia manter a honra da família intacta.

Andrea saiu da sala em direção ao quarto para passar as roupas que ela e o marido usariam no dia seguinte. Mas, ao passar pelo corredor, teve a impressão de ouvir um leve, quase imperceptível choro vindo do banheiro. Seu coração apertou de imediato; não sabia ao certo o que fazer ou dizer.

Dentro do banheiro, Catarina estava caída no chão frio, abraçando os próprios joelhos. Chorava silenciosamente, tentando sufocar os soluços para que ninguém a escutasse. As palavras duras do pai ecoavam em sua cabeça. Aquilo tudo parecia um pesadelo sem fim. Não importava onde estivesse — na casa dos pais ou ao lado de Henri —, sempre seria alvo de acusações e humilhações.

Com esforço, levantou-se e encarou o próprio reflexo no espelho. Os olhos vermelhos e inchados não pareciam os dela. Sentiu um arrepio percorrer-lhe a pele ao pensar, num lampejo sombrio: será que o pai tinha razão? Será que apenas a morte poderia dar fim àquele casamento?

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