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Caminho Traçado - Uma babá na fazenda romance Capítulo 353

Depois que Henri voltou da sala de doação, o tempo pareceu parar. As horas arrastavam-se em um silêncio sufocante, onde cada respiração pesava como culpa. Ninguém dizia nada, apenas o som distante de passos apressados indo e vindo do corredor preenchia o ambiente.

Aurora e Oliver se sentaram próximos ao filho, que permanecia imóvel, com o olhar perdido em um ponto fixo no chão. Henri parecia ausente, como se estivesse em outro mundo; o corpo ali, mas a alma presa na sala de cirurgia junto de Catarina.

Do outro lado, Damião e Andrea estavam sentados em um banco próximo ao corredor, as mãos entrelaçadas e a cabeça baixa. O silêncio entre eles durou tanto que, quando Damião finalmente falou, a voz saiu rouca, pesada de arrependimento.

— Eu não devia ter dito aquelas coisas… — murmurou, encarando o vazio à frente. — Eu não devia ter dito que esse casamento só não aconteceria se alguém morresse.

Andrea levantou o rosto lentamente, com os olhos marejados e o semblante tomado por dor. Engoliu em seco antes de responder, mas sua voz saiu forte, cortante como uma lâmina.

— Está vendo agora como as palavras têm poder, Damião? — disse, com a raiva e a dor se misturando em cada sílaba. — Se a Catarina não sair viva daquela mesa de cirurgia… eu juro que nunca vou te perdoar. Está me ouvindo? Nunca!

As lágrimas caíam pesadas do rosto dela, enquanto Damião fechava os olhos, sentindo o peso de cada palavra. A culpa o esmagava e, naquele instante, ele entendeu que talvez o castigo já tivesse começado.

— Não foi isso que eu quis dizer… — murmurou Damião, com o olhar perdido entre as próprias mãos. — Eu nunca desejei mal à minha filha… nunca.

Andrea o encarou com um misto de dor e revolta, enquanto as lágrimas escorriam sem que tentasse contê-las.

— Mas desejou o mal ao filho dos outros — retrucou com amargura. — E agora, Damião… agora Deus está nos castigando.

Ele baixou a cabeça, e um soluço escapou sem controle. O homem rígido e autoritário de sempre agora parecia pequeno, quebrado por dentro. Andrea não suportou mais olhar para ele. Sentia-se exausta, física e emocionalmente, como se cada lembrança da filha lhe arrancasse um pedaço da alma.

Sem dizer mais nada, levantou-se e caminhou pelos corredores do hospital. As luzes frias e o cheiro de antisséptico a deixavam ainda mais atordoada.

Ela parou diante da porta da sala de cirurgia, apoiando-se na parede para não cair.

O peito doía, o ar parecia escapar. A ideia de que a filha estava ali dentro, lutando entre a vida e a morte, a dilacerava.

— Aguenta, minha menina… — sussurrou com a voz fraca, olhando fixamente para a placa vermelha que dizia “CIRURGIA EM ANDAMENTO”. — Por favor… aguenta… mamãe está aqui.

E, pela primeira vez, Andrea sentiu o verdadeiro significado da impotência.

Noah deu um leve sorriso e pousou a mão no ombro do irmão.

— Eu sei disso, Gael. Mas você tem que ficar aqui, cuidar da sua esposa e da sua filha. A família precisa de você.

Gael assentiu, mas o olhar denunciava sua apreensão.

— O Henri está arrasado… eu posso sentir. — Gael comentou.

Havia coisas entre eles que iam além do sangue, algo que só os gêmeos conseguiam compreender. Era como se uma linha invisível unisse seus corações, permitindo que um sentisse a dor do outro, mesmo a quilômetros de distância. Não havia explicação lógica para aquilo. Era algo sobrenatural, instintivo, quase sagrado, um elo que o tempo, a distância ou o silêncio jamais poderiam romper.

Enquanto ouvia o marido e o cunhado conversando, Eloá começou a se sentir mal. Uma pontada estranha apertou-lhe o peito, como se algo dentro dela estivesse em desalinho. Mesmo que as circunstâncias tivessem afastado a amizade entre ela e Henri, não conseguia deixar de sentir tristeza pelo que estava acontecendo. Era como se, de algum modo, as palavras que ele repetiu tantas vezes — sobre nunca se casar, sobre não acreditar no amor — estivessem finalmente se cumprindo, e da forma mais cruel possível.

— Daqui a dois dias eu também retorno para o Brasil — disse Saulo, pensativo. — Espero que até lá essa moça já esteja fora de perigo… e que tudo isso tenha um desfecho menos doloroso do que parece.

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