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Caminho Traçado - Uma babá na fazenda romance Capítulo 355

Já era noite, e o silêncio do hospital pesava sobre todos. As luzes frias refletiam o cansaço e a apreensão de horas intermináveis de espera. Andrea havia acabado de voltar da sala onde Catarina permanecia em coma e agora se sentava em silêncio ao lado de Oliver e Aurora. O som distante dos passos nos corredores era o único que quebrava a quietude.

Sentado mais afastado, Henri passava as mãos pelos cabelos em um gesto nervoso. Seu olhar perdido denunciava a culpa que o corroía. Após alguns segundos de hesitação, levantou-se e se aproximou de Andrea.

— Eu também queria vê-la — disse com a voz rouca. — Por favor, só quero olhar para ela um instante.

Andrea levantou o olhar, confusa, sem saber o que responder, quando Damião apareceu no final do corredor, vindo na direção deles. Seu semblante estava sombrio, mas havia algo diferente, um ar cansado, quebrado, como se tivesse envelhecido anos nas últimas horas.

— Não acho que seja uma boa ideia — respondeu ele, interrompendo o pedido de Henri.

Confusa, Henri virou-se lentamente.

— Por que não?

Damião respirou fundo antes de responder.

— Enquanto eu estava ao lado da minha filha, entendi muitas coisas… — começou, tentando conter o tom de sua voz. — Tudo isso aconteceu porque eu nunca escutei a Catarina. Nunca dei voz a ela. E agora, depois de vê-la naquela cama, percebo o quanto errei.

O silêncio tomou conta do corredor. Ele continuou:

— Por isso, vou respeitar a vontade dela. E, pelo que me lembro, ela deixou bem claro que não queria se casar com você.

As palavras ecoaram, gelando o ar. Andrea o olhou, surpresa; Oliver baixou o olhar, compreendendo a gravidade do que estava sendo dito.

— Sei que disse e fiz coisas terríveis com você, Henri — prosseguiu Damião. — E, por mais que eu não me arrependa de tudo, porque ainda acho que agi como pai tentando proteger, reconheço que fui longe demais. Então, a partir deste momento, deixo de lado essa obrigação que fiz você assumir. Esse compromisso está desfeito.

Ele deu um passo à frente, olhando fixamente nos olhos de Henri.

— Você e sua família não têm mais nenhuma ligação nem obrigação conosco.

Confuso com o que acabou de ouvir, Henri tentou falar.

— Mas… senhor, eu não quero…

— Já está tarde — interrompeu o homem, erguendo a mão para cortar qualquer resposta. — Podem voltar para suas casas e descansar. Inclusive a senhora — acrescentou, olhando para Aurora, com o olhar gentil. — Agradeço o cuidado, a atenção e o que fizeram pela minha filha, mas a partir de agora… a Catarina é apenas nossa responsabilidade.

O silêncio que se seguiu foi pesado, quase sufocante. Henri permaneceu imóvel, sentindo que aquelas palavras, mesmo ditas em tom calmo, eram como uma sentença. Tudo o que restava nele era o arrependimento e o medo de que, quando Catarina despertasse, talvez já fosse tarde demais para dizer tudo o que ficou preso em seu coração.

Percebendo a resistência no olhar do filho, Oliver se aproximou em silêncio e colocou uma das mãos firmemente sobre o ombro dele.

Oliver, que dirigia, lançou-lhe um olhar rápido pelo retrovisor.

— Tem certeza de que quer dirigir agora? — perguntou com cautela. — Podemos pedir para o motorista ir buscar o carro amanhã.

— Eu quero ir sozinho — respondeu sem hesitar, seu tom saiu seco, quase automático.

Aurora se virou no banco do passageiro, observando o filho com preocupação. Havia algo no olhar dele, uma mistura de culpa, dor e esgotamento, que a fez sentir um arrepio na alma. Ela trocou um olhar com Oliver, pedindo em silêncio que ele não insistisse.

— Tudo bem, filho — disse Oliver por fim, resignado. — Mas, por favor, dirija devagar.

Henri apenas assentiu, sem olhar para eles. Quando o carro parou em frente ao cartório, ele abriu a porta e saiu sem dizer mais nada. O vento frio da noite o atingiu em cheio, trazendo consigo o peso de tudo o que havia acontecido.

Aurora o acompanhou com os olhos até vê-lo desaparecer na escuridão, antes de murmurar baixinho:

— Eu tenho medo do que esse silêncio do Henri está escondendo.

Oliver apertou o volante, com o olhar fixo na estrada à frente.

— Eu também, meu amor… eu também.

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