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Caminho Traçado - Uma babá na fazenda romance Capítulo 356

Antes de entrar em seu carro, Henri parou por um instante. O vento forte soprou contra seu rosto, fazendo-o fechar os olhos por alguns segundos. Quando os abriu, seu olhar foi atraído para o outro lado da avenida, exatamente o ponto onde tudo havia acontecido.

A lembrança veio como um soco. O carro, o grito, o impacto. O tempo parecia ter parado naquele momento, e agora, diante da mesma cena, ele sentia como se a dor voltasse a pulsar dentro dele.

A avenida estava quase deserta, apenas alguns carros passavam ao longe. Movido por um impulso, atravessou a rua devagar, até chegar ao local exato do acidente.

Ao se aproximar, seus olhos encontraram o que restava da tragédia: uma mancha escura no asfalto, vestígio do sangue de Catarina. Ele se abaixou, tocando de leve o chão frio, e sentiu o coração apertar.

— Eu causei isso… — murmurou, ainda sem acreditar em como as coisas aconteceram.

O som do trânsito distante se misturava ao de sua respiração irregular. Ele ficou ali por um tempo, imóvel, encarando o asfalto como se buscasse respostas que o absolvessem. Mas não havia nenhuma.

— Se você morrer, Catarina… — sussurrou, sentindo as lágrimas escorrerem sem controle — eu juro que nunca mais vou me perdoar.

O vento aumentou, balançando as folhas das árvores próximas e levando embora as palavras que ele mal conseguia dizer. Henri ficou ali, sozinho na escuridão, até que o som de um carro passando o despertou para a realidade.

Com o olhar perdido, ele voltou lentamente até o seu veículo, abriu a porta e entrou, mas não girou a chave de imediato. Apenas permaneceu sentado, com as mãos trêmulas sobre o volante, revivendo o que jamais conseguiria apagar da memória.

Após algum tempo, ele respirou fundo, ligou o carro e saiu dali devagar, sem saber exatamente para onde ir. As luzes da cidade iam ficando para trás, dissolvendo-se na escuridão, enquanto ele dirigia sem rumo, como se o movimento pudesse abafar os pensamentos que o consumiam.

As mãos no volante tremiam. Ele olhava pela janela e via tudo embaçado, as placas, os faróis, as sombras passando. Nada fazia sentido. O que fazia ali, andando pelas ruas, quando a mulher que mais havia ferido estava em uma cama de hospital, lutando para sobreviver?

Catarina… seu nome ecoava como um grito em sua cabeça.

Pensar que, enquanto ele respirava livremente, ela estava entre a vida e a morte, por culpa dele, por suas palavras cruéis, por seu orgulho estúpido, por ter sido o idiota que sempre jurou não ser.

Ele acelerou, sem destino. Lembrando-se de cada cena, das lágrimas dela, do medo em seus olhos, das vezes em que poderia tê-la abraçado e preferiu feri-la com palavras. Tudo parecia agora uma sequência de erros irreparáveis.

— Eu acabei com ela… — murmurou, com a voz falhando. — E tudo por quê? Por orgulho? Por raiva?

Bateu o punho no volante com força, tentando conter o nó que subia pela garganta. As lágrimas continuavam sem que pudesse controlar.

— E se eu tivesse procurado por ela uma noite antes? — sussurrou. — Se eu tivesse dito o que senti de verdade, teria sido diferente?

Por um instante, o arrependimento o atravessou como uma faca afiada. Tudo o que ele desejava agora era voltar no tempo e impedir que aquele dia tivesse existido. Mas o tempo, cruel como sempre, apenas o deixava diante do resultado de suas escolhas.

Com a respiração pesada, ele abriu a porta e entrou. A casa estava silenciosa, limpa, e na cozinha ainda havia um pedaço do bolo, vestígios do último toque de Catarina antes da tragédia.

Ele se sentou no sofá e levou as mãos ao rosto.

Era ali, naquela casa que ele próprio havia desprezado, que agora desejava vê-la, sentada no sofá, sorrindo, viva. A dor o atravessava com força, queimando por dentro.

— Como pude ser tão idiota? — murmurou, com a voz trêmula, enquanto o peito subia e descia num ritmo descompassado.

Levou as mãos ao rosto, sentindo o sal das lágrimas escorrer até os lábios.

— Eu me odeio… me odeio tanto — repetia, a cada palavra mais sufocado, sem saber se implorava perdão para ela, para Deus ou para si mesmo.

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