O carro parou em uma rua que não parecia cenário de cartão-postal.
Nada de letreiros luminosos disputando atenção, nem multidões com câmeras penduradas no pescoço. Ali, Tóquio era mais baixa, mais contida, quase tímida. Prédios antigos conviviam com fachadas modernas, pequenas lojas se enfileiravam como segredos compartilhados apenas entre quem sabia procurar.
Valentina desceu do carro com a bolsa no ombro e o celular já na mão.
O motorista ficou a alguns metros, discreto, atento — invisível como segurança bem treinado costuma ser.
O telefone vibrou.
Chamada de vídeo: Bianca.
Valentina sorriu antes mesmo de atender.
— Preparada, senhorita Kato, para andar comigo por Tóquio? — provocou, girando a câmera devagar.
Do outro lado da tela, Bianca deu um pulo tão exagerado que quase saiu do enquadramento.
— SIMMMMM! — gritou. — Meu Deus, eu estou andando por Tóquio sem sair do sofá, isso é tecnologia, isso é justiça poética!
Valentina riu alto.
— Prometo não te fazer passar vergonha internacional.
— Mentira. — Bianca rebateu. — Você vai fazer. E eu vou amar.
Elas começaram a andar.
A rua tinha um ritmo próprio. Bicicletas passavam em silêncio, pessoas entravam e saíam de lojas sem pressa, o ar cheirava a papel, café e algo antigo que Valentina não soube nomear — mas gostou.
— Agora vira à esquerda. — Bianca ordenou, animada. — Isso. Essa fachada de madeira escura.
Valentina levantou os olhos.
A livraria parecia ter parado no tempo.
Uma porta simples, uma placa pequena, letras desgastadas. Nada gritava “entre”. Era quase um convite sussurrado.
— Bianca… — Valentina murmurou, entrando. — Isso aqui é um templo.
O lugar era estreito, silencioso demais para duas mulheres em chamada de vídeo. Prateleiras altas, livros antigos, cheiro de papel envelhecido. Um senhor japonês atrás do balcão levantou o olhar lentamente.
— Shhh. — ele disse, seco.
Valentina congelou.
Bianca, do outro lado da tela, arregalou os olhos.
— Desculpa, desculpa, desculpa! — Valentina cochichou, cobrindo o microfone com a mão.
O homem continuou encarando por mais dois segundos antes de voltar para o livro que lia.
Assim que se afastaram um pouco, Valentina e Bianca se entreolharam pela tela.
E caíram na risada.
— A gente foi expulsa espiritualmente! — Bianca sussurrou, gargalhando.
— Eu quase fui deportada por excesso de empolgação. — Valentina respondeu, rindo baixo.
Ela percorreu as prateleiras com cuidado, os dedos passando pelas lombadas como quem reencontra velhos amigos. Parou de repente.
— Bianca… — disse, a voz mudando. — Eu procurei esse livro por anos.
Era uma edição antiga. Rara. O tipo de livro que ela sempre deixava para “quando tivesse tempo”.
Agora estava ali.
— Compra. — Bianca disse, sem hesitar. — Compra agora. Nada de “depois”.
Valentina sorriu, levou o livro ao peito por um segundo e foi até o balcão.
Minutos depois, saiu da livraria com a sacola nas mãos e os olhos brilhando.
— Foto. — Bianca ordenou. — Agora. Para o I*******m. Prova material da minha inveja.
Valentina riu, tirou a foto, postou.
📸 “Algumas histórias nos encontram quando estamos prontas.”
— Poético. — Bianca comentou. — Um pouco dramático. Gostei.
Elas retomaram a caminhada.
A chamada caiu por alguns segundos quando Valentina guardou o celular na bolsa para atravessar a rua. Assim que voltou a pegar o aparelho, Bianca já estava reclamando.
— Ei! Eu desapareço do mapa e você segue andando?
— Drama. Foram dez segundos.
— Em dez segundos você pode se apaixonar, tropeçar ou comprar algo caro.
Valentina riu.
— Próxima parada?
— Cafeteria. — Bianca respondeu, séria. — Mas NÃO pede nada até eu ver o cardápio.
Entraram em um pequeno café escondido entre dois prédios. Poucas mesas, cheiro de pão fresco e café forte.
— Vira a câmera. — Bianca pediu. — Eu escolho.
A atendente sorriu confusa quando Valentina aproximou o celular.
— Ela quer pedir por você. — Valentina explicou, rindo.
Bianca falou animada, misturando inglês com entusiasmo exagerado.
— Quero isso, isso e isso. Não, espera. Troca esse. Confia em mim.
Quando o pedido chegou, Bianca quase pulou do sofá.
— COME!
— Estou comendo!
— MAIS DEVAGAR! Eu quero viver isso com você!
Valentina obedeceu, rindo, sentindo algo raro: leveza.
Por algumas horas, Tóquio não era mistério, nem perigo, nem poder.

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