Valentina acordou com a sensação de que tinha sido atropelada.
Não era uma dor específica. Era pior do que isso. Um cansaço profundo, espalhado por cada músculo, como se o corpo tivesse sido exigido além do que conseguia suportar. Os ombros pesados. As pernas rígidas. A cabeça latejando baixo, insistente.
Ela abriu os olhos devagar.
Por alguns segundos, não soube onde estava.
Ela tentou se mexer — e percebeu.
Estava abraçada a Rafael.
O corpo dele a envolvia com firmeza tranquila, um braço ao redor de suas costas, a mão repousando entre seus ombros como se tivesse sido colocada ali para impedir qualquer queda. O rosto dele estava próximo demais. Os traços relaxados de um jeito raro, quase vulnerável.
Ele dormia profundamente.
Valentina prendeu a respiração.
O coração acelerou por um instante, confuso demais para entender se aquilo era consequência da noite… ou algo que tinha acontecido depois.
Ela não se lembrava de nada da noite — apenas do banho e do momento em que o cansaço a puxou para o escuro.
Com cuidado extremo, como se qualquer movimento pudesse acordá-lo ou quebrar algo invisível entre eles, Valentina começou a se soltar do abraço.
O corpo protestou quando se afastou. Não queria cooperar. Não queria sair dali.
Mas ela conseguiu.
Sentou-se devagar na cama, respirando fundo, e foi então que percebeu a própria roupa. A camiseta estava grudenta, úmida de suor frio, desconfortável demais para ignorar.
Levantou-se com cautela e seguiu para o banheiro.
A água quente trouxe algum alívio, mas também trouxe perguntas. Enquanto escorria pelos ombros e pelas costas, Valentina tentou puxar a memória da noite anterior.
Nada.
Quando saiu do banho, foi até o closet. Voltou vestida com roupas limpas e confortáveis quando algo chamou sua atenção.
Na mesa de cabeceira, do lado de Rafael, havia um copo com água, um termômetro e comprimidos separados com cuidado.
Remédios para febre.
Valentina franziu a testa.
Olhou de novo para Rafael, ainda dormindo.
— Estranho… — murmurou.
Aproximou-se da cama e, sem pensar muito, ajustou a coberta sobre ele. Um gesto automático.
Então saiu do quarto.
A ala estava silenciosa, mas ao chegar à pequena sala anexa, Valentina parou.
A mesa estava posta.
Café da manhã completo. Chá quente. Frutas cortadas com precisão. Tudo organizado ali — quando normalmente as refeições aconteciam na sala principal da mansão.
Moreira estava de pé, ao lado da mesa.
— Bom dia, senhora. — disse, com um leve inclinar de cabeça.
— Bom dia… — respondeu ela, ainda confusa. — Isso tudo é para mim?
— Sim. — respondeu ele, naturalmente. — Como está se sentindo agora? A febre baixou?
Valentina piscou.
— Febre?
Moreira a observou por um segundo a mais do que o habitual.
— Sim, senhora. — disse. — A senhora teve febre durante a madrugada. O médico foi consultado. O senhor… — ele fez uma pausa mínima — …não dormiu até que a temperatura estabilizasse.
Algo apertou no peito dela.
— Eu não lembro disso. — disse, baixo.
— É comum. — respondeu Moreira, servindo o chá.
Valentina se sentou.
Comeu devagar. Não sentia fome, apenas a necessidade estranha de comer algo para fortalecer seu corpo.
Moreira colocou um comprimido ao lado do prato.
— O médico recomendou. Para garantir que a febre não retorne.
Ela assentiu e tomou o remédio sem discutir.
Foi então que a porta se abriu com força demais para aquele ambiente silencioso.
Rafael entrou.
O olhar dele percorreu a sala em um segundo — rápido, tenso — e só relaxou quando a encontrou sentada à mesa.
Mas o rosto permaneceu sério.
— Por que levantou tão cedo? — perguntou. — Você deveria estar descansando.
Valentina ergueu o olhar.
— Estou bem. — respondeu, calma. — Só estava com fome.
Ele se sentou à frente dela.
Começou a comer, mas sem tirar os olhos dela. Observando. Conferindo.
Valentina respirou fundo.
— Eu… — hesitou. — Te dei trabalho ontem à noite, não dei?
O silêncio caiu pesado.
Moreira entendeu antes de qualquer ordem.
— Com licença. — disse, retirando-se discretamente da sala.
Não perguntou por quê.
E Rafael não explicou.
Quando atravessou o corredor externo da ala, o ar pareceu mudar.
Yamamoto o aguardava.
De pé, postura impecável, mãos cruzadas à frente do corpo. O rosto calmo demais para aquele momento. Homens como ele não demonstravam pressa — faziam o tempo esperar.
— Senhor Montenegro. — cumprimentou, inclinando levemente a cabeça. — Temos um assunto para encerrar.
Rafael não respondeu de imediato.
Ajustou o paletó. Endireitou os ombros.
— Sim. — disse, por fim. — Vamos resolver isso agora.
Os carros partiram poucos minutos depois.
A mansão ficou para trás, substituída por uma área afastada da cidade, industrial, silenciosa demais para ser comum. Um galpão isolado, pertencente à família Yamamoto — daqueles que não constavam em registros públicos e não recebiam visitas indesejadas.
Ali, as coisas terminavam quando precisavam terminar.
Rafael desceu do carro sem expressão.
O cheiro de metal, óleo e concreto frio tomou o ar.
Dentro do galpão, um homem estava amarrado a uma cadeira. Ferido, cansado, vivo — por enquanto. O único que sobrevivera ao sequestro.
Yamamoto entrou primeiro.
— Você teve tempo suficiente para pensar. — disse, em japonês, a voz tranquila demais para a situação. — Agora vai nos dizer quem mandou tocar na senhora Montenegro.
O homem ergueu o rosto, os olhos cheios de medo.
Rafael permaneceu alguns passos atrás.
O mesmo homem que, horas antes, ajustava uma coberta com cuidado.
O mesmo homem que sussurrava palavras para alguém que não podia ouvir.
Ali, ele era outro.
Frio.
Calculado.
Decidido.
Porque o mundo não era justo.
E homens como eles não podiam se dar ao luxo de fingir que era.
Enquanto Valentina descansava, envolta pelo silêncio seguro da mansão, o preço da segurança dela estava prestes a ser cobrado.
E alguém ia pagar por isso.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com o Magnata Frio por Um Acordo Bilionário