Valentina acordou com a sensação estranha de ter dormido demais.
Ela piscou devagar.
A luz entrava suave pelas portas de correr, filtrada, respeitosa.
Por alguns segundos, ela apenas ficou ali, respirando.
Então percebeu.
Rafael já estava acordado.
Vestia uma camisa clara, mangas dobradas com precisão. O cabelo ainda úmido denunciava o banho recente. Ele estava de pé, próximo à janela, observando o jardim com uma atenção silenciosa.
Havia algo diferente em sua postura.
Menos tensão nos ombros.
Menos rigidez no maxilar.
Ainda controle — sempre —, mas sem urgência.
— Bom dia. — disse quando percebeu que ela estava desperta.
A voz não era fria.
Não era dura.
Era simples. E isso, por si só, já era novo.
— Bom dia… — respondeu ela, sentando-se devagar, sentindo o corpo ainda pesado, mas obediente.
Rafael se aproximou alguns passos.
— Se arrume. — disse. — Vamos sair.
Valentina franziu a testa, surpresa.
— Sair?
Ele não respondeu de imediato. Pegou o relógio sobre a cômoda, ajustou no pulso com calma excessiva para alguém como ele.
— Tenho algo pra te mostrar. — completou.
Enquanto se levantava para ir ao banheiro, uma lembrança difusa atravessou sua mente, suave como um eco.
Rafael havia chegado tarde na noite anterior.
Ela não lembrava da hora exata, apenas do som discreto da porta se abrindo, do quarto mergulhado na penumbra. Lembrava dele se aproximando da cama, sem pressa, sem alarde.
Lembrava do sorriso de canto — breve, cansado.
Dorme.
Tentara dizer alguma coisa. Talvez uma pergunta. Talvez apenas o nome dele.
Não houvera espaço.
Ele já se afastava, indo para o banho. Minutos depois, sentira o colchão ceder ao seu lado. A presença firme. Silenciosa.
E então… nada.
O sono a puxara de volta antes que pudesse organizar qualquer pensamento.
Valentina afastou a lembrança com um suspiro lento e entrou no banheiro.
A água morna ajudou a despertar o corpo.
Quando saiu, já vestida com roupas simples e confortáveis, Rafael a esperava perto da porta.
Ele a observou por um instante a mais do que o necessário.
Não disse nada.
Apenas abriu o caminho.
O trajeto foi silencioso.
Mas não era o tipo de silêncio vazio. Era o tipo que fica cheio de coisas que ninguém decide dizer. Rafael dirigia com as duas mãos no volante, postura firme, o olhar na estrada. Valentina, ao lado, observava pela janela como quem tenta convencer o corpo de que o mundo ainda existe sem ameaça.
As ruas passavam e ela se pegava procurando perigo em reflexos: vitrines, retrovisores, sombras. E então lembrava que não precisava. Não ali. Não hoje. Ou pelo menos era isso que ela queria acreditar.
Ela olhou de canto para Rafael.
Ele não estava no telefone.
Aquilo, por si só, era quase irreal.
Quando o carro parou, Valentina sentiu antes de entender.
O ar era diferente. Mais fresco. Mais limpo. Tinha cheiro de árvore molhada e algo doce… discreto, como perfume de flor que não se impõe.
Ela desceu.
E o mundo abriu.
As sakuras estavam em plena floração.
Não era “bonito”. Era… indecente de tão bonito. Como se a natureza tivesse esquecido de ser prática e decidido ser arte por alguns dias. Rosa espalhado por tudo. Galhos carregados. Pétalas no chão como neve suave. E o vento fazendo aquilo acontecer em câmera lenta.
Valentina ficou parada.
A garganta apertou sem aviso.
Não era tristeza. Era o choque de ver algo leve depois de ter visto algo brutal. O corpo dela parecia não saber como reagir a um lugar onde ninguém corria.
— Uau... Os Doramas são reais. Disse encantada com a cena que vira tantas vezes na tela da televisão.
Ela começou a andar devagar.
Casais passavam por ela — mãos dadas, dedos entrelaçados. Um casal jovem tirava foto com o celular, rindo quando uma chuva de pétalas grudava no cabelo da garota. Um senhor ajeitava o casaco da esposa com um cuidado antigo, como quem faz isso há uma vida inteira.
Mais adiante, um homem ajoelhava.


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