Um segundo apenas.
Viu o vestido.
Viu o coque.
Viu o queixo erguido.
Não sorriu. Não demonstrou nada.
Mas viu.
Vittoria fez um gesto elegante, chamando a atenção de Isabella.
— Isabella, querida, esta é Valentina. — disse, com uma doçura tão falsa que dava vontade de rir. — A esposa do Rafael.
“Isabella.”
Não “senhorita Moretti”, ali.
Não na frente de Valentina.
A italiana virou-se por completo.
A análise foi rápida, cruel, automática:
Vestido sem brilho.
Nenhuma joia cara.
Sem grife aparente.
Beleza natural demais para o padrão enfeitado daquele mundo.
Isabella estendeu a mão, o sorriso perfeito no rosto.
— Finalmente nos conhecemos, Valentina. — disse, com sotaque leve. — Ouvi dizer que você é… muito especial.
O tom era neutro. Mas os olhos diziam outra coisa:
“Usurpadora.”
Valentina apertou a mão dela — firme, mas suave.
— Um prazer, senhorita Moretti. — respondeu.
Não devolveu “Isabella”.
Isabella sentiu. E não gostou.
— Espero que esteja se adaptando bem. — ela continuou, ainda sorrindo. — A família Montenegro pode ser… intensa.
Valentina também sorriu.
— Eu sempre me adapto. — disse, sem se explicar. — Faz parte da sobrevivência.
Alguns homens à mesa trocaram olhares.
Um deles — grisalho, elegante, claramente importante — inclinou a cabeça.
— A senhora é a advogada, certo? — perguntou. — A que estudou em Harvard?
Valentina se virou para ele, aliviada por um segundo ao falar de algo que não fosse veneno social.
— Um ano e meio de pós-graduação em Boston. — corrigiu, educada. — Não cheguei a concluir. A vida me trouxe de volta antes.
— Ainda assim, impressionante. — ele comentou. — Li um artigo assinado por você e pelo seu pai uma vez. Direito internacional tão claro que até leigo entende.
Um elogio direto.
Na frente de Vittoria.
Na frente de Isabella.
Na frente de Rafael.
Valentina sorriu de canto.
— Meu pai tinha mérito nisso. — respondeu. — Eu só organizava o caos.
Houve uma risada contida na mesa.
Isabella apertou o guardanapo no colo.
Vittoria ergueu a taça, cortando o momento.
— Bem, vamos brindar, não é? — disse, forçando leveza. — À volta da senhorita Moretti ao Brasil… e aos bons negócios que virão.
As taças se ergueram.
Valentina também ergueu a sua — sem entusiasmo, sem teatrinho.
Quando todos beberam, o jantar começou pra valer.
Conversas cruzando sobre:
Fundos de investimento.
Contratos internacionais.
Reuniões em Genebra.
Fusões discretas, mas milionárias.
Valentina comia devagar, em silêncio, observando.
Não era dali.
Não pertencia àquele teatro.
Mas entendia cada palavra.
Em um momento, um dos empresários comentou uma cláusula de compliance mal redigida de um acordo com um banco estrangeiro.
Valentina, sem pensar muito, murmurou:
— Se o senhor me permite… não foi mal redigida. Foi escrita assim de propósito. Deixa margem pra responsabilizar qualquer lado, dependendo de quem pagar melhor na hora de interpretar.
O homem arregalou os olhos, depois riu, surpreso.
— Exatamente. — confirmou. — Foi isso mesmo.
— E como você sabe? — Isabella perguntou, cortante. — Leu o contrato?
Valentina voltou o rosto pra ela, calma.
— Eu leio pessoas. — respondeu. — Contratos só seguem o mesmo padrão.
A mesa riu de novo.
Isabella mordeu o interior da bochecha.
Rafael, ao lado, permaneceu em silêncio. Mas o olhar dele havia se fixado nela um pouco mais tempo do que deveria.


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