Dois dias depois do jantar em que Rafael enfrentou Vittoria, a rotina de Valentina podia ser resumida em quatro verbos:
Comer.
Ler.
Pensar.
Resistir.
O quarto tinha virado mundo.
Ela acordava, tomava banho, prendia o cabelo num coque simples, escolhia qualquer camisola confortável, comia o que chegava na bandeja e mergulhava em livros, notícias jurídicas, decisões internacionais, qualquer coisa que mantivesse o cérebro funcionando.
Era uma prisioneira. Mas uma prisioneira com disciplina.
Na escrivaninha, o calendário já tinha mais um X marcado.
Mais um dia a menos. Mais perto do fim do contrato. Mais longe de qualquer tipo de paz.
“Cinco milhões.”
O número ainda batia no fundo da cabeça, silencioso, constante.
Ela fechou a aba do site financeiro no celular, jogou o aparelho de lado e recostou na cabeceira.
Não adiantava fazer contas. Tudo levava ao mesmo lugar:
Se pedisse dinheiro a Rafael…
perdia o pouco de liberdade que ainda podia sonhar em ter.
Estava perdida nesses pensamentos quando ouviu as três batidas secas na porta.
TOC. TOC. TOC.
Valentina não se mexeu.
— Entre. — disse, sem tirar os olhos do teto.
A porta se abriu.
Clara entrou.
O coque impecável de sempre, a expressão de quem tinha engolido vidro, a postura de funcionária perfeita que na verdade queria esganar a patroa.
Trazia um vestido pendurado no braço e uma caixa retangular nas mãos.
— Boa tarde, senhora Montenegro. — disse, formal demais. — A senhora Vittoria pediu que eu trouxesse isso.
Valentina ergueu o olhar, sem pressa.
— O que é?
Clara pendurou o vestido no puxador do closet, com um cuidado teatral.
O tecido era caro, mas… errado. Brilho demais.
Decote calculado demais.
Um “olhem pra mim” que não tinha nada a ver com Valentina.
— A senhora está convidada para um jantar esta noite. — Clara informou, com a voz neutra. — Em homenagem à chegada da senhorita Moretti.
Foi só então que os olhos de Valentina estreitaram.
— Senhorita… Moretti?
— Sim. — Clara quase sorriu. Quase. — A senhorita Isabella Moretti. Uma velha amiga da família. Muito… querida.
Velha amiga.
Querida.
Valentina não era burra.
Sabia o que aquilo significava.
Sabia desde o dia em que ouvira o nome dessa italiana pela primeira vez — sempre sussurrado com o tom de “noiva ideal para Rafael Montenegro”.
— A senhora deverá estar pronta às dezenove e trinta. — Clara continuou. — A senhora Vittoria pediu que use este vestido…
Abriu a caixa.
Sapatos de salto altíssimo, desconfortáveis só de olhar.
Jóias grandes demais, chamativas demais, vulgares demais pra uma Montenegro.
Clara pousou tudo sobre a cama, como se arrumasse uma oferenda.
— …e estes acessórios.
Valentina olhou para o conjunto.
Olhou para Clara.
E apenas disse:
— Pode deixar. Eu me arrumo.
Clara esperou alguma pergunta.
Uma reação.
Um “quem é ela?”.
Nada.
Só um “eu me arrumo”.
Aquilo a irritou mais do que qualquer grito.
— A senhorita Moretti tem uma relação longa com esta casa. — Clara arriscou, envenenando em gotas. — Talvez seja… interessante a senhora observar como a família realmente funciona.
Valentina sorriu de leve.
Um sorriso curto. Polido. Ácido.
— Ah, eu já tenho observado bastante. — respondeu. — Mas obrigada pela preocupação.
Clara cerrou a mandíbula.
— Estarei no corredor em meia hora. — avisou, seca. — Se a senhora precisar de ajuda…
— Não vou precisar. — Valentina cortou, suave.
Clara girou nos próprios saltos e saiu, batendo a porta um pouco mais forte do que deveria.
Valentina ficou sozinha.


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