O carro parou diante dos portões do cemitério com um rangido baixo dos pneus contra a terra úmida.
Não havia nada de solene ali.
Nada de mármore bem cuidado. Nada de flores frescas. Nada de silêncio reverente como se a morte ainda tivesse alguma dignidade naquele lugar.
Os portões de ferro eram velhos, gastos pelo tempo e pela ferrugem. A pintura escura já havia descascado em vários pontos, e o vento que passava por entre as grades fazia um som fino, quase lúgubre.
Rafael franziu a testa.
Até então, durante todo o passeio, havia humor nas perguntas dele. Curiosidade. Um certo fascínio contido pela forma como Valentina o havia conduzido por aquela parte esquecida do mundo.
Mas ali…
Ali alguma coisa mudou.
Ele virou o rosto devagar para ela.
— Você vai me trazer a um cemitério?
Valentina respirou fundo.
Até então também havia sorrido, brincado, desviado, inventado pequenas distrações para prolongar o dia e, talvez, adiar aquele momento mais alguns minutos.
Mas agora não havia mais espaço para desvio.
— Vou.
A resposta saiu baixa.
Sem brincadeira.
Sem leveza.
O motorista desceu primeiro e abriu a porta para eles.
Rafael saiu do carro ainda olhando o lugar à frente como se tentasse encaixar aquela cena em alguma lógica que ainda não conhecia.
Valentina desceu logo depois.
O vento gelado atravessou o casaco dela, levantando alguns fios do cabelo. Ela soltou outro suspiro, mais fundo dessa vez, e Rafael percebeu.
Percebeu o peso.
Percebeu a seriedade.
Percebeu que o brilho curioso do museu, o riso do almoço e a calma forçada do passeio tinham ficado para trás.
Ali, não havia mais nada disso.
Só verdade.
Ele olhou do cemitério para ela.
— O que estamos fazendo aqui?
Valentina não respondeu de imediato.
Apenas estendeu a mão.
Rafael a encarou por um segundo.
Depois entrelaçou os dedos nos dela.
Ela começou a caminhar, puxando-o lentamente para dentro.
As botas dele afundaram levemente no chão de terra e pedra. O caminho era estreito, ladeado por túmulos velhos, rachados, alguns inclinados, outros praticamente tomados pelo tempo. Lápides sem flores. Sem visitas. Sem cuidado. Algumas tinham nomes. Outras, só datas. Outras, nem isso.
Rafael sentiu um desconforto estranho crescendo dentro do peito.
Não era medo.
Era pressentimento.
Valentina continuava andando devagar, como se cada passo tivesse sido pensado muitas vezes antes de existir.
— Rafael… — ela começou, a voz baixa, mas firme. — Tudo nessa viagem, de certa forma, teve um propósito.
Ele não respondeu.
Continuou olhando à volta, depois para ela, depois de novo para os túmulos gastos.
Valentina caminhou mais alguns passos e então parou.
Rafael sentiu os dedos dela se apertarem nos seus por um instante antes de soltarem.
Ela virou-se para ele.
E foi ali que ele viu.
Tudo havia mudado nela.
Não havia mais risos.
Não havia mais brincadeira.
Não havia mais o charme provocador da mulher que, na noite anterior, dançava descalça na cozinha enquanto uma música mexicana tocava no rádio.
Ali estava outra Valentina.
Mais séria.
Mais vulnerável.
Mais corajosa do que ele gostaria que ela precisasse ser.
— O que está acontecendo, Valentina? — perguntou, agora sem sombra de humor.
Os olhos dela brilharam de um jeito dolorido.
Ela virou o rosto lentamente para a lápide à frente dos dois.
Era simples.
Sem foto.
Sem flor.
Sem qualquer gesto que dissesse que alguém, em algum momento, havia sido amado ali.
A pedra estava gasta. O nome, gravado sem cuidado. A tinta quase apagada pelo tempo.
Maria das Graças.
Uma data.
Nada mais.
Valentina fez uma pequena reverência diante do túmulo. Um gesto respeitoso. Humano. Íntimo.
E então falou, com a voz embargada logo na primeira palavra:
— Oi, Sara… meu nome é Valentina.
Rafael parou de respirar.
Não foi metáfora.



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