Alguns dias haviam passado desde que voltaram da Patagônia.
O escritório de Rafael Montenegro continuava o mesmo.
Vidros altos.
Cidade espalhada lá embaixo.
Documentos impecavelmente organizados sobre a mesa.
Mas Rafael não estava trabalhando.
Estava olhando para o nada.
Lucas falava.
E falava.
E falava.
— Então… — ele cruzou os braços, encostado na cadeira — sua viagem de fim de semana foi para isso?
Rafael não respondeu.
Lucas abriu um sorriso incrédulo.
— Uau.
Silêncio.
Depois ele balançou a cabeça lentamente.
— A cunhada é foda.
Rafael soltou um suspiro baixo.
— Não.
Lucas levantou uma sobrancelha.
— Não?
— Ela é surreal.
Lucas ficou em silêncio dessa vez.
Algo na forma como Rafael disse aquilo não era exagero.
Era constatação.
Rafael passou a mão pelo rosto devagar.
— Ela conseguiu algo que eu sempre achei impossível.
Lucas apoiou os cotovelos na mesa.
— Imagino.
Rafael desviou o olhar para a janela.
A cidade seguia viva lá fora.
Mas naquele momento ele estava longe dali.
— Minha mãe estava completamente louca.
Lucas ficou sério.
— Ela realmente mandou Sara para o fim do mundo.
Rafael assentiu lentamente.
— Eu procurei por ela durante anos.
A voz dele estava mais baixa agora.
— Em tantos lugares.
Ele engoliu seco.
— E nunca imaginei que ela estivesse enterrada como indigente na Patagônia.
Lucas permaneceu em silêncio.
Rafael continuou olhando para fora.
— Já mandei trazer o corpo para São Paulo.
Lucas levantou o olhar.
— Sério?
— Sim.
Rafael respirou fundo.
— O túmulo dela finalmente terá um corpo.
Lucas ficou sério outra vez.
— Os pais dela nunca souberam… que aquele túmulo estava vazio.
Rafael balançou a cabeça.
— Nunca.
Ele se levantou e caminhou até a janela.
— Para eles, Sara morreu naquele acidente.
Silêncio.
— Eles nunca souberam do porquê.
Rafael apoiou uma mão no vidro.
— Apenas o que eu quis que eles soubessem.
Lucas o observava com atenção.
— Sempre ajudei com tudo que eles precisavam.
Rafael respirou fundo.
— Eu devia isso a ela.
Uma pausa.
— E espero que ela me perdoe.
Lucas ficou alguns segundos em silêncio, algo raro para ele.
Conhecia Rafael havia mais de dez anos. Tempo suficiente para ter visto o amigo derrubar empresas gigantes, esmagar concorrentes e atravessar crises que fariam qualquer outro homem cair de joelhos.
Mas aquela história…
Aquela era diferente.
Porque ali não existia dinheiro, estratégia ou poder capazes de consertar o que tinha sido quebrado no passado.
Lucas lembrava de noites em que Rafael simplesmente desaparecia por dias inteiros, viajando para cidades onde alguém jurava ter visto um corpo ser enterrado na madrugada.
Lembrava dos investigadores pagos, das pistas falsas, das viagens sem resposta.
Da obsessão silenciosa.
E agora, pela primeira vez em muito tempo, o amigo parecia… mais leve.
Como se parte da armadura que sempre carregou tivesse finalmente caído no chão.
Lucas se levantou.
Caminhou até ele.
Colocou a mão no ombro do amigo.
— Ela já perdoou.
Rafael não respondeu.
Lucas continuou:
— E você sabe disso.
Rafael soltou o ar lentamente.
Lucas inclinou a cabeça.
— De certa forma… você está mais leve.
Rafael não negou.
Lucas sorriu de lado.
— Valentina tirou um peso enorme das suas costas.
Rafael fechou os olhos por um segundo.
Havia tantos sentimentos misturados dentro dele agora que era difícil separar um do outro.
E algo novo que ele ainda não sabia nomear.
Lucas se afastou um pouco.
— Rafael.
Ele esperou o amigo olhar para ele.
— Estamos perto do final do contrato.
Rafael ficou imóvel.
Lucas continuou:
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