Valentina abriu o envelope com cuidado e retirou três fotografias.
Não eram fotos de família.
Eram imagens tiradas à distância, sem contexto claro, porém suficientes para fazer algo frio deslizar por sua espinha. Seu pai conversando com dois homens na saída de um prédio comercial. A mãe entrando em um carro que Valentina não reconheceu. E, na terceira, um ângulo ruim, noturno, borrado, mostrando o que parecia ser o estacionamento de um galpão industrial.
Ela aproximou a fotografia da luz.
No canto inferior havia uma data.
Dias antes do acidente.
Valentina ficou imóvel, as pupilas dilatando devagar.
Aquilo já não era apenas recordação.
Aquilo era coleta.
Era vigilância.
Era alguém acompanhando seus pais antes de morrerem.
A cadeira rangeu quando ela se levantou depressa demais. O papel escorregou de seus dedos e quase caiu, mas ela o segurou a tempo. O coração agora não batia pesado por tristeza. Batia por alerta. Por raiva. Por uma lucidez cortante que afastou qualquer resquício de torpor emocional.
Andrade sabia.
Ou soubera parte.
Talvez por isso estivesse em perigo.
Talvez por isso a entrega tivesse vindo daquele jeito, muda, sem remetente, como quem já não podia confiar em ninguém.
Valentina se afastou da caixa por um segundo e levou a mão à bolsa. Pegou o celular. A tela acendeu no mesmo instante, exibindo o nome de Rafael em meio às mensagens antigas, como se o aparelho soubesse exatamente qual abismo ela fitava.
Seu polegar pairou sobre o contato.
Bastava tocar.
Bastava dizer onde estava.
Bastava deixar que ele fizesse o que sempre fazia: erguer muralhas, mover peças, apagar o risco à força.
Mas então ela pensou na terceira foto de novo. No galpão. No enquadramento ruim. Na sensação incômoda de que aquele lugar, de algum modo, conversava com algo ainda maior. Com gente poderosa. Com passado blindado. Com peças que talvez se encaixassem depressa demais se o nome certo fosse mencionado cedo demais.
E se houvesse alguém observando os passos dela?
E se o próprio fato de revelar imediatamente o que encontrou colocasse tudo a perder?
Ou pior.
E se a reação de Rafael dissesse mais do que ela estava pronta para ouvir?
Valentina apertou o celular com força, odiando a própria linha de pensamento. Odiando até considerar aquilo. Odiando ainda mais saber que não podia descartá-lo completamente.
Ela amava o marido.
Mas amor não era cegueira. Não mais.
Muito menos agora.
Com movimentos lentos, guardou o telefone de volta na bolsa.
— Não ainda — disse em voz baixa, mais para conter a si mesma do que por convicção absoluta.
Voltou para a caixa.
No fundo, quase escondida debaixo das pastas, havia uma chave menor presa com fita adesiva a um cartão sem identificação. Ao lado, um caderno de capa preta bastante gasto. Valentina o pegou primeiro.
Ao abrir, encontrou páginas preenchidas com anotações alternadas entre a letra do pai e a da mãe. Não era um diário. Era pior. Era um registro.
Datas.
Nomes.
Movimentações financeiras.
Observações secas demais para serem inocentes.
Em várias páginas, o mesmo cuidado paranoico: referências incompletas, iniciais, símbolos, setas ligando pessoas a empresas, empresas a encontros, encontros a transferências.
Ela folheava cada página com crescente incredulidade, e quanto mais lia, mais uma certeza suja se instalava em sua pele.
Seus pais sabiam que estavam cercados.


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