O hospital ficou para trás como um ruído distante, quase irreal, como se tudo o que tivesse acontecido ali pertencesse a outra vida, a outra mulher. Valentina não acompanhou o caminho com atenção. As ruas passavam pela janela do carro em borrões de luz e movimento, mas ela não via de verdade. Estava presente apenas no corpo, porque a mente ainda estava presa no que ouvira, no que descobrira, no que perdera.
As mãos repousavam sobre o colo, imóveis, enquanto os pensamentos giravam em silêncio, pesados demais para organizar. O corpo ainda estava fraco, mas não era isso que importava. Não era isso que doía.
Quando o carro desacelerou e parou, ela piscou algumas vezes, como se precisasse reaprender a voltar para o mundo real. Só então olhou ao redor.
Não reconhecia o lugar.
Era uma vila elegante, silenciosa, onde cada casa parecia carregar riqueza sem precisar exibir. Jardins bem cuidados, arquitetura refinada, ruas limpas demais para uma cidade que nunca parava. Era o tipo de lugar onde o dinheiro não gritava — ele simplesmente existia.
Valentina franziu levemente a testa.
— Enzo… o que estamos fazendo aqui?
Ele sorriu de lado, tranquilo demais para quem a trouxera sem explicação.
— Relaxa.
Desceu do carro primeiro, contornando o veículo com naturalidade. Valentina hesitou por um instante antes de sair também, sentindo o ar diferente ao redor, mais limpo, mais calmo… mas não acolhedor.
Havia algo ali que não abraçava.
Ela olhou ao redor novamente, mais atenta.
— Enzo…
Mas ele já estava abrindo a porta da casa.
— Vem.
Valentina parou por um segundo na entrada antes de entrar, e bastou um olhar para entender que aquele lugar não era comum. O interior era amplo, elegante, impecável em cada detalhe, como se tivesse sido pensado para impressionar. Tudo estava no lugar certo, tudo parecia perfeito… mas nada parecia vivido.
A ausência de calor era quase palpável.
— Essa é minha casa — disse ele, entrando como se fosse apenas mais um espaço qualquer. — E antes que você pense demais… eu não moro aqui.
Ela abriu a boca para responder, mas ele ergueu a mão com suavidade, interrompendo antes que ela pudesse insistir.
— Valentina, você precisa de alguém ao seu lado agora. Eu nem sei exatamente o que aconteceu entre você e o Rafael… mas sei que você não está bem. E eu não vou te deixar sozinha em um hotel qualquer.
A voz dele não pressionava, mas também não permitia discussão. Era firme na medida certa, tranquila o suficiente para não assustar.
— Minha mãe deve estar chegando — continuou. — Ela estava em um bingo com as amigas. E, só para você ficar tranquila, eu tenho meu próprio apartamento no centro.
Valentina respirou fundo, tentando organizar as palavras que não vinham.
— Enzo… eu não quero dar trabalho…
A frase não chegou ao fim.
Passos ecoaram pelo corredor.
Uma mulher mais velha surgiu, postura impecável, olhar atento e comportamento discreto, como alguém que sabia exatamente qual era seu lugar naquele ambiente.
— Margareth — disse Enzo com naturalidade. — Venha, preciso te apresentar alguém.
Ela se aproximou e, ao parar diante dele, inclinou levemente a cabeça.
— Senhor Montenegro.
O sobrenome atingiu Valentina como um golpe silencioso.
Montenegro.
Seu coração reagiu antes da razão, apertando por um segundo que pareceu mais longo do que deveria.
— Margareth, essa é a senhora Valentina Montenegro. Ela vai ficar aqui o tempo que quiser. Quero que prepare refeições nutritivas… adequadas para uma gestante.
A governanta voltou o olhar para Valentina, e algo ali mudou. Havia respeito, sim, mas também uma suavidade que não combinava com o ambiente ao redor. Ainda assim, quando seus olhos retornaram brevemente para Enzo, um traço sutil de tensão apareceu — rápido demais para ser escancarado, mas perceptível o suficiente para quem estivesse prestando atenção.
Valentina percebeu.
Mas não aprofundou.
Não tinha espaço dentro dela para mais perguntas.
— Prazer, senhora — disse Margareth com gentileza. — Sou a governanta da casa.
— Prazer… pode me chamar de Valentina.
A mulher assentiu com um leve sorriso, e havia algo sincero ali, algo que destoava do restante da casa.
— Margareth — continuou Enzo — leve a senhora Montenegro para o quarto de hóspedes e cuide de tudo.
Valentina virou-se para ele.
— Enzo, não precisa—
Ele se aproximou e segurou a mão dela com firmeza, mas sem invadir.
— Valentina… eu não vou te deixar sozinha nesse mundo.
O olhar dele desceu por um instante até o ventre dela antes de voltar ao rosto.
— Muito menos agora.
Ela fechou os olhos por um segundo, sentindo o peso de tudo, e quando os abriu novamente, já não tinha forças para discutir.
— Obrigada…
Ele sorriu, tranquilo, como se aquilo fosse simples.


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