A primeira coisa que voltou foi o som. Um bip constante, ritmado, distante… como se estivesse vindo de muito longe. Depois veio o peso no corpo. Os braços pesados, as pálpebras difíceis de abrir, a respiração lenta demais para alguém que, poucas horas antes, estava em pé, gritando, destruindo tudo.
Valentina abriu os olhos.
A luz branca do teto a atingiu de imediato, fazendo-a franzir a testa. O ambiente era estranho, limpo demais, silencioso demais. O cheiro de antisséptico veio logo em seguida, confirmando o que o corpo já começava a entender antes mesmo da mente acompanhar.
Hospital.
Ela tentou se levantar.
Rápido demais.
O mundo girou.
O braço puxou involuntariamente, e o soro preso à veia tensionou, fazendo-a levar a outra mão até ele, num impulso de arrancar aquilo de uma vez.
— Valentina, não faz isso.
A voz veio firme, mas baixa.
Enzo.
Ele estava ao lado da cama antes mesmo que ela conseguisse terminar o movimento, segurando suavemente o pulso dela para impedir que tirasse o acesso.
— Calma… calma, você acabou de acordar.
Ela parou.
Não porque quis.
Mas porque o corpo não respondeu.
A respiração veio mais curta, mais pesada, e ela acabou cedendo, deixando o peso voltar contra o colchão enquanto fechava os olhos por um segundo, tentando se localizar.
— Onde… — a voz saiu rouca — onde eu estou?
— No hospital — respondeu ele, mais baixo agora. — Você desmaiou mais cedo. Eu te trouxe pra cá.
Valentina ficou em silêncio por um instante.
As imagens vieram em flashes. Ela abriu os olhos de novo, mais alerta agora, e tentou se sentar.
Dessa vez, mais devagar.
Enzo a ajudou, ajustando o travesseiro atrás das costas com cuidado, como se estivesse lidando com algo frágil demais para movimentos bruscos.
— Devagar…
Ela respirou fundo, apoiando as mãos sobre o lençol.
— Enzo… obrigada.
Ele sorriu de leve, um daqueles sorrisos fáceis, tranquilos.
— Que isso, prima.
Ele se encostou na cadeira ao lado da cama, os olhos atentos a qualquer reação dela.
— Tentei falar com o Rafael… mas, como sempre, ele não me atendeu.
Valentina endureceu.
O olhar perdeu qualquer resquício de suavidade.
— Não é pra avisar ele.
A resposta veio seca. Direta. Sem espaço.
Enzo inclinou levemente a cabeça, observando.
— O que aconteceu?
Ela desviou o olhar.
O maxilar tensionou.
— Eu não quero falar dele.
Silêncio.
Não era evasão. Era recusa.
E antes que ele pudesse insistir, a porta se abriu.
O médico entrou com o prontuário em mãos, olhando rapidamente os dados antes de erguer os olhos para ela.
— Senhora Montenegro, a senhora precisa tomar mais cuidado com a sua saúde…
— Doutor.
Ela o interrompeu.
A voz saiu firme, mesmo com o corpo ainda instável.
— Me chame de Valentina Diniz.
O médico piscou, surpreso.
Baixou os olhos para o prontuário novamente.
— Como disse?
— Diniz.
Ela sustentou o olhar.
— Meu nome não é Montenegro.
Um breve silêncio se instalou.
— Sim… claro. Me desculpe.
Ele se recompôs rapidamente, profissional.
— Então, senhora Diniz… preciso que leve isso a sério. Seu quadro indica exaustão física e emocional, e—
Ele fez uma pausa curta, folheando o prontuário.
— — e há um ponto mais importante aqui.
Valentina franziu a testa.
O coração começou a acelerar sem motivo claro.
— A sua gravidez está em estágio inicial — continuou ele, com naturalidade — cerca de quatro semanas. É fundamental que a senhora cuide da alimentação, evite esforço físico e, principalmente, controle o estresse. Qualquer instabilidade pode levar a um aborto.
Silêncio.
O mundo pareceu travar.
— O que… o que o senhor disse?
A voz saiu mais baixa.
Mais lenta.
Como se precisasse repetir para si mesma.
O médico manteve o tom estável.
— A senhora está grávida. Quatro semanas.
As palavras ecoaram.
Grávida.
Quatro semanas.
Grávida.
O som do próprio coração ficou alto demais dentro da cabeça dela.
As mãos começaram a suar.
A respiração mudou.
O médico continuou falando, mencionando cuidados, consultas, alimentação, mas nada mais entrou.
Nada.
Porque tudo já tinha mudado.
Quando ele saiu, o silêncio que ficou foi diferente.
Valentina ainda estava olhando para frente.
Mas não estava vendo.

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