Valentina abaixou o rosto, olhando a superfície trêmula da água por alguns segundos até que outra lágrima caiu. Depois outra. Depois mais uma, e então já não havia mais como conter.
O choro veio quieto primeiro, dolorido, como se subisse de um lugar muito fundo. As mãos subiram ao rosto. Os ombros tremeram. E Helena apenas ficou ali, sem pressa, sem tentar interromper, sem transformar aquilo em discurso.
— Eu fiz tudo… — disse Valentina entre lágrimas, a voz se quebrando. — Eu peguei prova por prova… eu sustentei tudo… eu olhei pra ele… eu ouvi a sentença…
Ela apertou as mãos contra o rosto, como se tentasse se esconder de si mesma.
— E quando ele saiu… eu só senti vazio.
Helena fechou os olhos por um instante, como se recebesse aquela dor no próprio peito.
— Porque você ainda é humana, querida.
Valentina soltou um som curto, quebrado, que podia ser riso ou soluço.
— Não… não era pra doer assim.
— Era, sim — murmurou Helena. — Porque você não levou um estranho até a condenação. Você levou o homem que amou.
A frase bateu nela como uma pancada.
Valentina deixou a cabeça cair para trás, os olhos fechados, e chorou sem freio.
Quando saiu da banheira, Helena a ajudou a se secar e vestir uma roupa leve, confortável, quase infantil no excesso de cuidado que trazia. Não havia sensualidade em nada. Só proteção. Só conforto. Só a tentativa de segurar alguém que já estava além da exaustão.
Ao voltarem para o quarto, Enzo já estava ali, conversando em voz baixa com um homem mais velho de expressão serena.
— O doutor Álvaro chegou — disse ele.
O médico se aproximou devagar, respeitando o estado dela antes mesmo de fazer qualquer pergunta.
— Boa noite, Valentina.
Ela respondeu com um leve aceno.
A consulta foi breve, suave, sem invasões desnecessárias. Pressão, pulso, observação das pupilas, algumas perguntas sobre alimentação, sono, náusea e tontura. Helena respondeu parte por ela. Enzo completou o resto quando foi necessário. E, pela primeira vez em muito tempo, Valentina deixou que cuidassem dela sem protestar.
— Ela entrou em estado de choque emocional — explicou o médico com a voz baixa, sem dramatizar. — O corpo está tentando continuar, mas a mente ainda não acompanhou tudo. Isso é perigoso pelo estresse, e ainda mais agora.
Os olhos dele desceram discretamente até o ventre dela.
— Ela precisa comer, descansar e dormir. Vou deixar uma medicação leve para estabilizar e evitar que o corpo entre em colapso maior. Nada forte. Apenas o suficiente para ajudá-la a atravessar essa noite.
Helena assentiu de imediato.
— Eu cuido disso.
O médico foi embora pouco depois, deixando recomendações e a promessa de voltar no dia seguinte se necessário.
Quando a porta se fechou, o quarto voltou ao silêncio.
Helena pegou o comprimido e um copo d’água.
— Toma, minha querida.
Valentina obedeceu.
Depois Helena insistiu em algumas colheradas de sopa. Enzo ficou ali, sentado mais afastado, mas presente, observando cada pequeno gesto dela com a atenção mansa que já começava a se tornar familiar. Não havia pressão no jeito dele. Não havia cobrança. Havia apenas presença.
— Assim… só mais um pouco — disse Helena, paciente.
Valentina engoliu sem saber direito o gosto.
Tudo parecia cinza.
Automático.
Quando a bandeja foi retirada, Helena ajeitou os travesseiros e fez um gesto para que ela se deitasse.
Mas Valentina não foi direto.
Em vez disso, caminhou até a bolsa deixada sobre a poltrona e abriu o zíper com dedos lentos. Enzo a observou de onde estava. Helena também. Nenhum dos dois perguntou o que ela procurava.
Ela tirou a fotografia.
Aquela mesma.
Jorge. Alba. Ela ainda menina, entre os dois, numa tarde perdida de um tempo que parecia pertencer a outra vida.
Valentina segurou a foto com as duas mãos por alguns segundos.
Depois sentou-se na beira da cama.
E olhou.
De verdade.
Como se quisesse atravessar o papel.
Como se quisesse voltar.
O silêncio no quarto ficou tão grande que o som da respiração dela pareceu alto demais.
— Pai… mãe… — murmurou finalmente, e a voz saiu tão pequena que chegou a doer. — Eu vinguei vocês.
As lágrimas desceram antes mesmo de ela terminar.
— Eu fiz o que precisava ser feito… eu levei isso até o fim… eu fiz ele pagar…
— Hoje você não precisa saber.
Foi uma resposta simples.
E devastadora.
Porque lhe deu permissão para cair.
E ela caiu.
O remédio começou a fazer efeito pouco a pouco, não apagando a dor, mas deixando seus contornos menos cortantes. O choro foi diminuindo até virar respiração pesada, depois soluços espaçados, depois apenas exaustão.
Helena a ajudou a se deitar.
Enzo puxou o lençol até cobri-la com cuidado.
A fotografia permaneceu nas mãos dela.
Mesmo deitada, Valentina não soltou.
— Fica com ela — disse Helena, como se lesse o medo dela de perder mais alguma coisa.
A luz do quarto foi diminuída. O silêncio se instalou de novo, mas agora tinha outra qualidade. Não era o silêncio do tribunal, nem o silêncio da sentença. Era o silêncio que vem quando o corpo, finalmente, já não consegue mais sustentar a própria dor acordado.
Ainda assim, antes de fechar os olhos, Valentina voltou a olhar a fotografia uma última vez.
Os rostos de Jorge e Alba sorriam para um mundo que ainda não tinha acabado.
— Eu fiz isso por vocês… — murmurou, quase sem som.
Mas, pela primeira vez, a frase não soou como força.
Soou como pedido de sentido.
Helena permaneceu sentada ao lado da cama por algum tempo, fazendo carinho nos cabelos dela até a respiração começar a desacelerar. Enzo ficou mais atrás, em silêncio, assistindo àquela mulher desmoronada com a paciência tranquila de quem sabe exatamente a hora de não dizer nada.
Não em paz.
Não em alívio.
Mas em colapso.
E, enquanto a noite tomava conta da casa e o mundo lá fora ainda celebrava a queda de Rafael Montenegro como se justiça e felicidade fossem sempre a mesma coisa, dentro daquele quarto só existia uma verdade:
Valentina tinha vencido.
Mas a vitória tinha lhe custado tudo.

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