Dois dias tinham passado desde a sentença, e o tempo dentro daquele quarto parecia ter perdido a utilidade.
A luz da manhã vinha e ia. As refeições chegavam e desapareciam em bandejas quase intocadas. O relógio avançava, mas Valentina continuava deitada como se o corpo tivesse decidido parar enquanto o resto do mundo insistia em seguir. Às vezes dormia por cansaço, às vezes por efeito do remédio, às vezes apenas fechava os olhos e permanecia imóvel, encarando por dentro tudo aquilo que ainda não conseguia nomear. O quarto seguia escuro a maior parte do tempo, as cortinas fechadas, o ar parado, o silêncio pesado demais para parecer descanso.
Ela não chorava mais.
E isso assustava mais do que o choro.
Helena entrava algumas vezes ao longo do dia, trazia sopa, chá, remédio, palavras baixas e um cuidado que jamais pressionava. Enzo aparecia menos, mas quando aparecia, deixava sempre alguma coisa sobre a poltrona — uma fruta cortada, um iogurte, uma revista, uma tentativa discreta de lembrar que a vida ainda tinha objetos comuns, pequenos rituais, coisas mínimas que seguiam existindo apesar de tudo.
Mas Valentina continuava ali.
Sem força para levantar.
Sem vontade de falar.
Sem desejo de voltar ao mundo que, agora, parecia distante demais para ser alcançado.
Foi no fim da manhã do terceiro dia que a porta se abriu sem cerimônia.
Enzo entrou.
Não carregava bandeja. Não carregava chá. Não trazia a expressão cuidadosa de sempre. Trazia outra coisa. Decisão.
Valentina virou o rosto devagar ao ouvir os passos e o encontrou já no meio do quarto, olhando ao redor com uma desaprovação silenciosa, quase ofendida, como se as cortinas fechadas, o ar abafado e a mulher deitada sobre a cama fossem uma afronta pessoal.
— Eu não vou deixar você fazer isso.
A voz saiu firme.
Sem aspereza, mas sem margem para negociação.
Valentina franziu levemente a testa, a mente ainda lenta demais para acompanhar a velocidade dele. Antes que pudesse perguntar o que “isso” significava, Enzo atravessou o restante do quarto e abriu as cortinas de uma vez.
A luz entrou sem piedade.
Valentina fechou os olhos no mesmo instante, levando a mão ao rosto.
— Enzo, não…
— Sim, Enzo — devolveu ele, sem culpa nenhuma. — Porque esse quarto está com cheiro de derrota, e eu me recuso a deixar você apodrecer aqui dentro.
Ela soltou um suspiro irritado, virando parcialmente o rosto para o travesseiro, mas ele já vinha em sua direção de novo. Parou ao lado da cama, olhou para ela por um segundo e então segurou os braços dela com firmeza suficiente para obrigá-la a se erguer, fazendo-a sentar-se.
Não havia brutalidade no gesto.
Havia urgência.
Havia um sacode moral de alguém que não estava disposto a assistir passivamente a uma queda silenciosa.
— Escuta — disse ele, abaixando-se o bastante para que ela fosse obrigada a encará-lo. — Eu poderia deixar você aqui, definhando, acabando com a sua vida, convencida de que isso é luto, justiça ou seja lá o nome bonito que você queira dar. Mas eu não vou.
Valentina piscou devagar, ainda tonta pela luz, pela mudança repentina, pelo modo como a presença dele ocupava o quarto inteiro.
— Enzo…
— Não, deixa eu falar. Eu sou seu amigo. Quero o seu bem. E também sou primo do bebê que você está carregando, então não posso, de forma alguma, deixar essa criança atravessar isso junto com você como se fosse normal.
A menção ao bebê fez alguma coisa nela reagir.
Pouco.
Mas reagiu.
Valentina abaixou o olhar por um instante, como se aquilo pesasse mais do que qualquer outra frase, e então respirou fundo.
— O que você quer?
Enzo se endireitou um pouco, como se estivesse satisfeito por finalmente ter arrancado uma pergunta em vez de um silêncio.
— Quero que você saia dessa cama. Quero que tome banho. Quero que pare de se esconder nesse quarto como se o mundo tivesse acabado. Quero que volte a trabalhar, volte a andar, volte a falar, volte a olhar pra frente. Sua funcionária está praticamente morando no corredor, andando de um lado para o outro o dia inteiro, sem saber o que fazer. Minha mãe já rezou, já chorou escondido, já quis chamar três médicos diferentes. E você continua aqui… se autodestruindo em câmera lenta.
Valentina soltou um ar curto, cansado.
— Não consigo.
A frase saiu baixa.
Honesta.
Tão desarmada que, por um segundo, até a raiva de Enzo pareceu amolecer.
Mas só por um segundo.
— Eu sei que não consegue — disse ele, mais baixo agora, porém não menos firme. — É por isso que eu estou aqui.
Fez uma pausa breve, observando o rosto abatido dela, e então o tom mudou de leve, saindo do sério para aquele território perigoso onde ele parecia sempre conseguir alcançá-la.
— Agora você vai levantar dessa cama, tomar um banho, porque esse cheiro definitivamente não é seu e está me ofendendo como cidadão, e depois vai descer.
Valentina ergueu os olhos para ele com uma indignação fraca.
— Você acabou de me chamar de fedida?
O canto da boca dele subiu.
— Eu jamais diria algo tão grosseiro. Só estou dizendo que você costuma cheirar melhor do que depressão e travesseiro.
Apesar de tudo, apesar do peso, apesar do buraco dentro dela, um quase sorriso ameaçou nascer.
Foi mínimo.
Mas ele viu.
Claro que viu.
— Ah, então ainda existe uma pessoa viva aí dentro — murmurou, satisfeito. — Ótimo. Eu vou te dar vinte minutos. Se você não descer nesse tempo, eu volto, chamo minha mãe, ela mesma te dá banho e depois eu te jogo na rua pra tomar sol como quem resgata planta morrendo.
Valentina arregalou um pouco os olhos.
— Você é ridículo.
— E você tem dezenove minutos agora — respondeu ele, já indo em direção à porta. Antes de sair, olhou por cima do ombro com a sobrancelha levantada. — Dezoito e meio, na verdade. Não me faça cumprir ameaça ridícula porque eu cumpro.
Ele saiu.

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