A casa parecia mais silenciosa naquela noite.
Não um silêncio vazio. Mas aquele tipo de quietude que antecede algo importante, como se até o ar aguardasse.
Valentina estava no alto da escada quando parou diante do espelho do corredor.
Observou-se. Com calma.
O vestido era elegante, caía com precisão sobre o corpo, marcando suas curvas sem exagero. Os cabelos estavam soltos, levemente ondulados, e a maquiagem… suave o suficiente para não esconder o cansaço, mas firme o bastante para devolver presença.
Ela levou a mão ao ventre por um instante.
Inconsciente.
E então respirou fundo.
— Vamos.
A voz de Enzo veio de baixo.
Quando ela ergueu o olhar e começou a descer, ele já estava parado na base da escada.
E, pela primeira vez… não disfarçou.
O olhar dele subiu devagar.
Sem pressa. Sem vergonha. Sem aquele filtro social que normalmente escondia admiração.
Parou. Fixou. E ficou.
Valentina percebeu. Claro que percebeu.
E, por um segundo… o tempo pareceu desacelerar.
— Você está linda — disse ele.
Simples. Direto. Sem floreio.
Mas com verdade.
Ela piscou.
A frase a pegou desprevenida.
— Nem parece mãe — completou ele, com um leve sorriso no canto da boca, como se estivesse consciente do efeito que aquilo causaria.
Valentina arqueou levemente a sobrancelha.
— Isso foi um elogio ou uma tentativa de me irritar?
— Os dois — respondeu ele, sem hesitar.
Ela soltou um ar pelo nariz.
Mas… sorriu.
E isso foi suficiente para ele.
— Vamos? — perguntou, estendendo o braço.
Valentina olhou. Por um segundo. E então segurou.
O coquetel acontecia em um dos salões mais tradicionais da cidade.
Expectativa.
A entrada já estava tomada por empresários, investidores, jornalistas selecionados — todos ali para ver o novo presidente da Montenegro Corp.
E, inevitavelmente… quem estava ao lado dele.
Quando o carro parou, Enzo desceu primeiro.
Abriu a porta para ela. Estendeu a mão.
Valentina aceitou.
E, dessa vez, quando os dedos se encontraram…
não houve hesitação.
O salão se abriu diante deles como um cenário cuidadosamente montado.
Luzes douradas. Taças de cristal.
Murmúrios contidos.
E olhares. Muitos olhares.
Assim que entraram, a mudança foi perceptível.
As conversas diminuíram. As atenções se voltaram.
Valentina sentiu.
Não era só curiosidade. Era análise. Era julgamento. Era expectativa.
Ela ajustou levemente a postura.
A mão segurando o braço de Enzo com mais firmeza.
E ele… percebeu. Claro que percebeu.
A mão dele cobriu a dela por um segundo.
Pressionando levemente.
Um gesto pequeno. Mas suficiente para dizer:
estou aqui.
E ela ficou.
— Presidente Montenegro — cumprimentou um dos investidores, aproximando-se com um sorriso controlado. — Parabéns pela nomeação.
— Obrigado — respondeu Enzo, com segurança.
O homem desviou o olhar para Valentina.
— E a senhora… imagino que também esteja envolvida nesse novo momento.
Valentina sustentou o olhar.
— De certa forma.
O sorriso dele aumentou.
— Excelente. A Montenegro precisa de estabilidade agora.
Ele se afastou. Mas não foi o único.
Outros vieram. Cumprimentos. Palavras medidas.
E sempre… o mesmo olhar.
O mesmo interesse. O mesmo subtexto.
— Eles estão falando — murmurou Valentina, baixa, inclinando levemente o rosto em direção a Enzo.
— Sempre estão — respondeu ele.
— Sobre nós.
Ele não negou. Não confirmou.
Apenas virou o rosto na direção dela.
— Isso te incomoda?
Valentina hesitou. Por um segundo.
— Não sei.
Ele observou.
E então disse, baixo:
— Não precisa decidir agora.
Eles caminharam pelo salão.Lentos. Sincronizados.
Como se sempre tivessem feito aquilo.
E, quanto mais andavam… mais evidente ficava.
Os olhares. Os cochichos. As interpretações.
— Faz sentido — disse uma mulher mais ao fundo, sem perceber que Valentina estava próxima o suficiente para ouvir. — Ela sustentou tudo sozinha. Ele assume agora. É uma união forte.
— E necessária — respondeu o homem ao lado.
Valentina continuou andando.
Mas ouviu. Cada palavra. Guardou.
O discurso começou alguns minutos depois.
Enzo subiu ao pequeno palco.
O salão silenciou.
O olhar dele desceu rapidamente para a mão dela ainda apoiada no próprio braço.
— Continua comigo?
Valentina hesitou.
Um segundo.
Talvez dois.
E então… segurou o braço dele de novo.
— Continuo.
O sorriso dele foi pequeno. Mas verdadeiro.
Mais tarde, já no meio do salão, alguém se aproximou com mais ousadia.
— Presidente… — disse o homem, olhando entre os dois. — Posso dizer que estamos diante da nova dupla que vai reconstruir a Montenegro?
Valentina sentiu o olhar de Enzo.
Esperando. Não pressionando.
Mas… presente. Ela poderia negar.
Poderia recuar. Poderia se afastar. Mas não fez.
— Estamos diante de um recomeço — respondeu ela, calma.
O homem sorriu.
— Excelente resposta.
E se afastou.
Quando a noite começou a terminar, Valentina já não era a mesma mulher que havia descido aquela escada.
Algo havia mudado.
No carro, o silêncio voltou.
Mas agora… diferente.
Ela olhava pela janela.
Mas não via a cidade. Via as possibilidades.
As palavras. Os olhares. A ideia.
E, pela primeira vez…
ela não a rejeitou de imediato.
— Enzo — chamou, depois de alguns minutos.
— Hm?
Ela demorou um pouco antes de continuar.
— Aquilo que sua mãe disse…
Ele não virou o rosto.
Mas ouviu.
— Sobre o casamento.
Silêncio.
— Ainda é uma opção?
Agora ele olhou.
Devagar. Com cuidado.
— Só se for uma escolha sua.
Valentina assentiu.
E voltou o olhar para a janela.
Mas, dentro dela… a ideia já não parecia absurda.
Parecia… possível.
E isso… mudava tudo.

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