A noite chegou mais silenciosa do que o dia merecia. Depois da reunião, depois da assinatura, depois das palmas que ainda ecoavam na mente como um som distante demais para ser comemorado, Valentina voltou direto para o escritório.
Foi quando a mensagem chegou.
Enzo: Te busco às oito. Sem discussão.
Ela olhou para o celular por alguns segundos.
Quase respondeu.
Quase recusou.
Quase inventou uma desculpa.
Mas não respondeu.
E, às oito em ponto, ele estava lá.
O carro parou diante do prédio, e quando Valentina entrou, encontrou Enzo já sentado no banco de trás, o olhar erguendo-se imediatamente para ela.
Havia algo diferente nele.
Não era só a roupa — o terno mais alinhado, a postura ainda mais firme.
Era a energia.
Mas, ao mesmo tempo… Algo mais pessoal.
— Boa noite — disse ele, e o tom não era formal.
Era… próximo.
Valentina assentiu.
— Boa noite.
Ele fez um gesto leve para que ela se sentasse ao lado dele.
Ela sentou.
A porta se fechou. O carro começou a andar.
Silêncio.
Mas não desconfortável.
— Eu devia agradecer — disse ele, depois de alguns segundos.
Valentina virou o rosto.
— Não precisa.
— Preciso, sim.
O olhar dele encontrou o dela.
— Você confiou em mim hoje.
Ela sustentou o olhar por um instante.
— Eu fiz o que achei certo.
— Mesmo assim.
Ele não desviou.
— Obrigado.
Valentina respirou fundo.
Algo naquele jeito…
Direto, mas sem pressão…
mexia.
— Para onde estamos indo? — perguntou, desviando o assunto.
Um sorriso leve surgiu no canto da boca dele.
— Surpresa.
— Não gosto de surpresas.
— Mente mal.
Ela quase sorriu.
O restaurante era discreto.
Elegante.
Reservado o suficiente para não chamar atenção.
Sem imprensa. Sem olhos curiosos.
Enzo desceu primeiro e estendeu a mão para ela.
Valentina hesitou por um segundo.
Um segundo mínimo.
E então aceitou.
Os dedos dele envolveram os dela com firmeza.
Quente.
Seguro.
E… demoraram.
Mais do que o necessário.
Quando ela desceu, ele ainda não soltou.
Valentina percebeu.
Mas não puxou a mão de volta.
E ele também não.
Só depois de alguns passos ele soltou.
Natural.
Como se não tivesse sido nada.
Mas foi.
A mesa já estava pronta.
Reservada. Velas baixas. Luz suave.
Intimidade suficiente para ser perigosa.
Enzo puxou a cadeira para ela.
Valentina se sentou.
Observou.
Ele.
O gesto.
A forma simples.
Mas… diferente.
Rafael nunca fazia isso.
Nunca precisou ou nunca quis.
— Você está me olhando como se estivesse me analisando — disse Enzo, sentando-se à frente dela.
— Estou.
Ele sorriu.
— E o veredito?
Valentina apoiou o cotovelo na mesa, o olhar ainda fixo nele.
— Ainda não decidi.
— Isso é bom ou ruim?
— Ainda não decidi isso também.
Ele soltou um riso baixo.
— Justo.
O garçom apareceu, serviu vinho, explicou o cardápio.
Eles pediram.
E, quando ficaram sozinhos de novo, o silêncio voltou.
— Você voltou ao escritório hoje — comentou ele.
— Voltei.
— E?
Valentina desviou o olhar por um instante.
— Nada mudou.
— Mudou, sim.
Ela voltou a encará-lo.
— O quê?
Ele apoiou os braços na mesa.
O olhar mais sério agora.
— Você.
Valentina sentiu o impacto.
— Eu não sei se isso é bom — disse ela, mais baixa.
— Eu sei.
Ela arqueou levemente a sobrancelha.
— Sabe?
Devagar.
Como se não quisesse.
Mas respeitasse.
— Desculpa — disse, mas não parecia arrependido.
— Não peça desculpa por algo que fez de propósito.
— Então não peço.
Ela soltou um ar pelo nariz.
E, sem perceber… sorriu.
Enzo observou.
Com atenção.Com calma. Como se guardasse aquilo.
Quando saíram do restaurante, a noite estava fria.
Valentina cruzou os braços instintivamente.
Antes que percebesse, o casaco de Enzo já estava sobre seus ombros.
Ela ergueu os olhos para ele.
— Você não precisa—
— Eu quero.
Sem espaço para recusa.
Ela ficou em silêncio. O tecido ainda quente.
Com o cheiro dele.
E isso… foi um erro.
Porque trouxe uma memória involuntária.
Rafael.
O perfume dele. O jeito como ela reconhecia a presença dele sem precisar olhar.
Valentina fechou os olhos por um segundo.
Rápido.
Quando abriu… Enzo ainda estava ali.
— Você ficou distante — comentou ele, observando.
— Só estou cansada.
Ele não insistiu.
Mas percebeu. Claro que percebeu.
No caminho de volta, o silêncio veio de novo.
Mas, dessa vez… mais íntimo.
Valentina olhava pela janela.
Mas não via a cidade. Via o que tinha acontecido.
Era perigoso.
Quando o carro parou, Enzo desceu primeiro.
Deu a volta. Abriu a porta para ela.
Estendeu a mão.
De novo.
Valentina olhou.
Por um segundo.
E então aceitou.
Dessa vez… sem hesitar.
Os dedos se entrelaçaram.
E ficaram.
Mais uma vez… um pouco mais do que deveriam.
E, pela primeira vez desde que tudo começou a desmoronar…
Valentina sentiu algo diferente do vazio.
Não era amor.
Não era paz.
Mas também não era dor.
Era… calor.
E isso, naquele momento… era suficiente.

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