O espelho refletia uma mulher que ela ainda não reconhecia.
O cabelo preso em um coque rígido, a maquiagem leve escondendo a exaustão, o vestido bege de corte simples nada de véu, flores ou promessas. Era apenas um contrato vestido de cerimônia.
O relógio marcava 8h. Faltava menos de uma hora.
A casa estava silenciosa, como se até as paredes esperassem o desfecho. A pasta com o contrato repousava sobre a mesa, ao lado de uma xícara de café intocada.
Valentina observou as próprias mãos por um instante. Estavam frias. As unhas curtas, impecáveis, como sempre. Mas tremiam.
Pegou o celular, rolou mensagens antigas e parou na última foto com o pai: os dois no tribunal, sorrindo. Ele usava a toga, ela segurava o diploma de Harvard. O brilho nos olhos de ambos era o mesmo o brilho de quem acreditava na verdade.
Ela quase riu. Verdade. Palavra bonita demais pra caber no mundo em que vivia agora.
Um toque na campainha interrompeu o silêncio.
Valentina olhou o relógio. 9:12h.
Não esperava ninguém.
Antes dela mesmo abrir a porta, uma mulher entrou sem pedir permissão. Terno preto, coque apertado, perfume caro e olhar de quem já conhecia o terreno.
— Senhorita Diniz? Disse, sem rodeios. — O senhor Montenegro pediu que eu a acompanhasse até o hotel.
Valentina ergueu o rosto, sem esconder o incômodo.
— Ele costuma mandar escolta para todas as mulheres com quem faz negócios?
A mulher arqueou uma sobrancelha, como quem se diverte com a ingenuidade alheia.
— Só quando a mercadoria é cara. Respondeu, seca. — E ele prefere garantir que chegue inteira.
O ar saiu dos pulmões de Valentina, mas ela não piscou.
A palavra ficou ecoando entre as duas: mercadoria.
Fria. Exata.
Ela pegou o blazer com calma, vestindo-o como uma armadura.
— Diga a ele que a mercadoria sabe andar sozinha.
A assistente deu de ombros.
— Ele não confia na mercadoria. Confia no transporte.
Por um segundo, as duas se encararam em silêncio.
Valentina passou por ela sem olhar para trás.
Clara apenas seguiu, como uma sombra paga para lembrar quem tinha dono.
No carro, o silêncio era pior.
O motorista que Rafael enviara aguardava de terno escuro, impassível. Nenhuma saudação, nenhum comentário. Apenas abriu a porta e dirigiu.
A cidade passava do lado de fora prédios, avenidas, pessoas apressadas e ela, ali dentro, parecia flutuar fora do tempo.
O destino: o cartório mais antigo de São Paulo.
Nenhum glamour, nenhuma platéia. Apenas duas testemunhas contratadas e o ruído distante de uma impressora velha.
Quando entrou, o ar pareceu mudar.
Rafael já estava lá.
De terno cinza-chumbo, mãos nos bolsos, o relógio no pulso marcando o mesmo horário que o dela. Pontual, frio, imaculado.
Havia algo de irritante na calma dele. Como se o mundo estivesse sempre sob controle, inclusive ela.
— Pensei que fosse se atrasar. Disse sem olhar para ela.
— Não costumo fugir daquilo que escolho. Respondeu. — Mesmo quando não tenho escolhas.
Ele a encarou por um breve instante.
— É um bom princípio pra um casamento.
Valentina respirou fundo e caminhou até a mesa. O juiz de paz ajeitou os papéis, as testemunhas se apresentaram, e o som do relógio pendurado na parede parecia mais alto do que todas as vozes.
— Nome completo da noiva?
— Valentina Moura Diniz.
— Do noivo?
— Rafael Montenegro.
As assinaturas vieram rápidas, precisas.
Nenhum olhar trocado. Nenhum gesto de afeto.
Quando o juiz anunciou a união, a frase soou como uma sentença:
“Declaro-os legalmente casados.”
E foi isso.
Sem aplausos.
Sem anel.
Sem beijo.
Rafael apertou a mão dela com firmeza.
O toque foi breve, mas gelado o suficiente pra deixá-la em alerta.
— Parabéns, senhora Montenegro. O tom era puro aço.
Valentina retribuiu com um olhar que poderia cortar vidro.
— Parabéns, senhor Montenegro. Acabamos de nos ajudar.
Ele esboçou um sorriso discreto.


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