Gotas.
Primeiro foram só isso.
Pequenas, frias, insistentes — caindo no rosto dela como dedos impacientes tentando despertá-la.
Valentina mexeu a cabeça, um gemido rouco escapou da garganta.
Tudo estava pesado.
O corpo.
Os olhos.
A mente.
Uma dor lenta pulsava no fundo do crânio, como se algo lá dentro tivesse sido desligado à força.
Ela tentou respirar fundo.
O ar veio úmido, salgado… gelado.
A segunda coisa que ela sentiu foi o balanço.
Não suave.
Não acolhedor.
Um balanço irregular, brusco, que fazia seu estômago virar e revirar como se quisesse subir pela garganta.
Valentina forçou os olhos a abrirem.
Um trovão rasgou o céu.
A luz branca do raio iluminou tudo por UM segundo — e o horror caiu inteiro sobre ela.
Ela estava em um barco.
O céu era um monstro de nuvens escuras.
A chuva que antes eram gotas virou jorros.
O vento cortava como navalha.
E o oceano — o oceano estava VIVO.
Ondas batendo contra o casco.
Água invadindo partes do deque.
O barco gemendo como se fosse partir ao meio.
Ela se levantou num solavanco — e quase caiu.
— O quê…? — a voz dela saiu mais ar do que som.
Ela apoiou uma mão na parede lateral do barco, tentando estabilizar o próprio corpo.
A cabeça rodopiava.
O mundo parecia inclinar.
Só água escura em todas as direções.
A tempestade engoleria tudo.
O pânico veio como um soco.
— Isabella?! — ela gritou, a voz se quebrando. — Isabella! Tem alguém aqui?! Tem alguém… — mais um trovão abafou o resto.
A resposta foi o vento uivando contra seu rosto.
Valentina cambaleou até a parte central do barco, segurando nas bordas, o corpo chocando contra a madeira molhada a cada balanço violento.
Ela escorregou, bateu o joelho, gemeu — mas levantou.
— Pelo amor de Deus… — sussurrou, tentando não entrar em pânico. — Tem alguém aqui? Alguém?!
Nada.
Só o mar rugindo.
Ela correu até a pequena escada que levava ao interior da cabine.
Abriu a porta com um estalo.
Vazia.
O interior estava completamente vazio.
Não havia vozes, passos, sombra de alguém. Nada que dissesse que alguém tinha estado lá havia minutos.
O barco era uma casca oca no meio do oceano.
Ninguém.
Só o eco da própria respiração sufocada.
— Não… não, não, não… — ela murmurou, a voz falhando, enquanto voltava correndo para o deque.
A chuva agora caía com tanta força que machucava a pele.
O vento chicoteava os cabelos no rosto.
As ondas batiam no casco como murros.
— Meu Deus… — ela segurou a cabeça com as duas mãos. — O que eu faço? O que eu faço…?
Ela tentou respirar.
Não conseguiu.
Tentou de novo.
Nada.
O terror fechava o peito como uma mão gigante.
A garganta de Valentina apertou.
Uma onda inesperada atingiu a lateral, e a água entrou pela porta aberta, encharcando seus pés. Ela se assustou e voltou cambaleando para o deque, batendo o ombro na porta no processo.
— Deus… — ela sussurrou, sentindo o corpo começar a tremer. — Deus, por favor…
Ela precisava respirar. Precisava pensar. Precisava de ajuda.
Foi então que lembrou.
O celular.
Ela correu até a bolsa jogada perto do banco de trás, os dedos trêmulos demais para abrir o zíper. Conseguiu abrir na terceira tentativa, derrubando a bolsa inteira no chão molhado.
— Não… não, não, não…
Ela se levantou cambaleando, agarrou a bolsa jogada perto do banco e abriu com violência.
Vazia.
Só a carteira.
Só a chave do quarto.
Nada de celular.
— Não… não pode… — ela vasculhou mais fundo, virou a bolsa ao avesso, espalhou tudo no chão molhado.
Mas já sabia.
O celular não estava ali.
Uma onda alta bateu na lateral do barco.
A água subiu, molhou tudo, arrastou parte das coisas para longe.
Valentina segurou a borda do banco para não ser derrubada.
Ela gritou.
Um grito que nasceu do fundo da alma.
— SOCORRO!!! ALGUÉM!!! POR FAVOR!!!
A tempestade respondeu com outro trovão.
Ela fechou os olhos, as lágrimas se misturando com a chuva.
— Eu vou morrer… — sussurrou, a voz quebrada. — Eu vou morrer aqui…
O barco balançou tão forte que ela caiu outra vez, batendo o ombro, gemendo alto.
Cada músculo tremia.
O mar era um animal selvagem.
E ela era só… humana.
— Rafael… — a palavra escapou antes que ela percebesse. — Onde você está…?
Outro trovão.
Dessa vez tão perto que o chão tremeu.
O barco inclinou perigosamente para o lado.
A água invadiu o deque.
Valentina agarrou o corrimão com toda força, os dedos escorregando.
O desespero subiu pela garganta como ácido.
O vento rugiu.
A chuva cegava.
O mar engolia o horizonte.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com o Magnata Frio por Um Acordo Bilionário