O salão ainda estava em polvorosa com a aparição deles.
Mas o caos diminuiu, virou correnteza organizada, abriu caminho — porque quando Rafael e Valentina se moviam, o mundo aprendia a se ajustar.
Valentina mantinha o braço enlaçado no dele, postura impecável, máscara impecável, sorriso discreto e estudado. Só que…
Quando duas figuras se aproximaram — como aves de mau agouro — aquele sorriso morreu um pouco.
Vittória Montenegro.
E Isabella Moretti.
Mãe e serpente.
As duas vinham firmes, carregando arrogância como se fosse joia.
Valentina não precisou baixar os olhos para perceber que Isabella a fuzilava da cabeça aos pés, avaliando, comparando, odiando silenciosamente.
E então Isabella sorriu.
Aquele sorriso falso que mulheres de veneno nascem sabendo fazer.
— Oi, querida… — ela disse com doçura sufocante. — Você está tão linda hoje.
A frase era um tapa.
Um “você é bonita, mas nunca suficiente” escondido no açúcar.
Valentina ficou muda.
Não por medo.
Mas pela RAIVA controlada que subiu como calor sob a pele.
Ela sabia:
Uma cena ali, e ela viraria manchete.
Uma palavra torta, e Isabella choraria na frente dos fotógrafos.
Um tom errado… e Vittória faria daquele momento o início da ruína dela.
Então Valentina deixou o veneno circular — mas escolheu o antídoto da elegância.
Ela sorriu.
Devagar.
Perigoso.
— Que isso… — murmurou com uma doçura que só quem está segurando uma adaga sabe usar. — Apenas mostrando que a família Montenegro trata muito bem sua família… ou sua nora. Ainda não decidi a palavra certa.
Isabella engoliu seco.
O sorriso dela tremeu.
Vittória deu um passo à frente, rígida como mármore rachado.
— Eu espero — disse, afiada como navalha — que você saiba seu lugar e não atrapalhe meu filho esta noite.
Os investidores japoneses estão aqui. Eles observam tudo.
Inclusive você.
Valentina virou-se para a sogra.
E sorriu como se estivesse ouvindo… sobre flores, ou clima, ou qualquer coisa que não fosse uma ameaça descarada.
— Minha sogra… — Valentina respondeu baixinho, a voz doce mas cortante — a senhora é quem está se alterando.
Eu até agora estava indo muito bem.
Ela virou o rosto para Rafael, erguendo a sobrancelha com uma sutileza elegante.
— Não é, querido?
Rafael não estava esperando ser chamado para o palco.
A garganta dele travou.
Ele pigarreou.
E pela primeira vez no baile… realmente olhou para ela.
Olhou pra valer.
Como se a máscara, o vestido, o brilho — tudo fosse uma provocação pessoal.
Valentina apertava o braço dele discretamente — não um pedido de socorro, mas um aviso:
“Não me deixe sozinha nisso.”
Rafael inclinou-se para frente, a expressão mudando como tempestade escondida atrás das nuvens.
E então…
Ele falou tão baixo que só três mulheres ouviram — mas o tom… ah, o tom fez até o sangue daquelas duas gelar.
— Se ousarem — disse Rafael Montenegro, no tom de quem decide guerras — fazer qualquer coisa aqui dentro… eu corto a cabeça das duas. Sem piscar.
Vittória arfou.
A taça tremeu na mão.
O esmalte quase lascou de tanta pressão.
Isabella ficou branca — branca de perder cor, brilho, consciência social.
Rafael então tomou o braço de Valentina com firmeza.
Não carinho.
Não gentileza.
TERRITÓRIO.
E, diante das duas adversárias, ele disse apenas:
— Vamos.
E arrastou Valentina para longe delas.
Isabella ficou estática.
Vittória permaneceu fulminando, fumegando, incrédula.
A música mudou.
Violinos suaves, graves quentes, o tipo de melodia que pede pele contra pele e um segredo no ouvido. O salão inteiro se reorganizou para o centro, abrindo o espaço como se já soubesse quem deveria ocupar a pista.
Rafael parou de andar.
Valentina, ainda segurando o braço dele, sentiu a pausa — firme, calculada, autoritária.
Ele virou o rosto para ela.
— Dance comigo. — não foi pergunta; foi ordem delicadamente mascarada.
Valentina ergueu a sobrancelha.
— Agora?
O rosto de Valentina subiu na mesma linha do dele.
Os lábios se tocaram.
Primeiro um choque suave.
Depois um beijo inteiro — firme, quente, inevitável.
Rafael não planejou.
Não pensou.
Não calculou.
Ele simplesmente cedeu.
A mão na cintura dela apertou.
A respiração dele falhou no meio do beijo.
O corpo dele inclinou-se para ela como se estivesse sendo puxado.
Valentina abriu os olhos no meio do beijo — surpresa… mas não recuou.
Quando ele finalmente se afastou, milímetros apenas, Rafael ficou ali.
Imóvel.
Olhando.
Respirando como se tivesse sido golpeado.
Ele não conseguiu falar por três segundos.
Valentina sorriu pequena, inocente e cruel ao mesmo tempo.
E passou os braços ao redor do pescoço dele, puxando-o para um meio abraço teatral — perfeito para a plateia.
— Estou fazendo um bom trabalho, não estou… senhor? — ela sussurrou contra a boca dele, como se o beijo tivesse sido apenas performance.
Mas Rafael…
Rafael sentiu o coração bater no próprio maxilar.
A mão dele ainda estava na cintura dela.
O cheiro dela estava no ar.
O gosto dela ainda estava na boca dele.
Ele afastou o rosto devagar, endurecendo tudo de novo.
A couraça voltando.
O general retomando seu posto.
— Sim. — respondeu, seco. — Está.
Valentina sorriu.
Mas era um sorriso que escondia um furacão.
Ele soltou a cintura dela — não porque quis.
Mas porque se continuasse segurando… não largaria mais.
— Vamos sair da pista. — disse Rafael, a voz mais baixa que o normal.
Ela assentiu.

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