O salão Montenegro ainda estava preso no silêncio depois do beijo.
Não um silêncio comum.
Um silêncio de catástrofe social, o tipo que acontece quando a elite inteira vê algo que não deveria ter acontecido — mas que ninguém jamais esquecerá.
E então…
O CAOS COMEÇOU.
O primeiro surto foi de Isabella.
Ela ficou tão branca que parecia feita de gesso.
Os olhos arregalados, a boca aberta num “o quê???” eterno, o coração saindo pela boca.
— Ele… ele a beijou… — ela murmurou, devastada, a voz falhando. — Em público… na pista… NA MINHA FRENTE…
A visão dela embaçou.
Ela precisou segurar no braço de uma mesa.
O mundo desabou sobre Isabella Moretti.
Mas por trás dela…
Vittória Montenegro.
Ah, a matriarca.
Ela viu o beijo inteiro.
Inteiro.
Cada milímetro.
E sua expressão se partiu em três emoções distintas:
1. horror,
2. ódio,
3. pânico velho de quem sente o poder escorrendo pelos dedos.
A taça de champagne tremia tanto na mão dela que por um segundo até quem estava perto achou que seria um ataque cardíaco.
— Isso… isso é um absurdo. — Vittória sussurrou, a voz trêmula e venenosa. — Meu filho… beijando ela… em público…
Era como ver alguém assistir ao próprio castelo desabar.
Isabella, ainda anestesiada, segurou no braço da matriarca:
— Senhora… ele… ele nunca me olhou assim…
E antes que Vittória pudesse cuspir mais veneno—
Uma voz surgiu atrás das duas.
Elegante.
Ironicamente doce.
E cruel na medida certa.
— Queridas… cuidado. — disse Helena Montenegro, com a taça de vinho rubi em mãos. — Suas dentaduras vão cair desse jeito.
As duas viraram ao mesmo tempo.
Helena estava esplêndida.
Cabelo preso num coque baixo, vestido vinho metálico que destacava cada curva, brincos antigos herdados da família Montenegro — ironicamente, herdados do irmão que recebeu toda a fortuna no lugar dela.
O veneno dela vinha embalado em seda francesa.
Vittória se endireitou, furiosa:
— Helena, controle sua língua. Isso aqui é um evento sério.
— Evento? — Helena sorriu, inclinando a cabeça. — Minha querida cunhada… o que acabei de ver foi HISTÓRICO.
E francamente? — ela bebeu um gole de vinho, saboreando. — Se eu fosse você, me preocuparia menos com a minha língua… e mais com seu trono.
Isabella empalideceu ainda mais.
Vittória apertou a taça com tanta força que o cristal fez um tic perigoso.
— Helena… — ela disse entre dentes. — Não se meta.
Helena deu um passo para o lado, fingindo delicadeza enquanto a alma dançava samba.
— Ahn, não se meta… — ela repetiu, teatral. — Mas é claro. Afinal… — ela olhou para a pista onde Rafael e Valentina deixavam o centro — …alguém aqui está claramente perdendo espaço.
Vittória sentiu o estômago despencar.
Isabella arfou, mortificada.
E Helena?
Helena assistiu, triunfante.
Ela se aproximou mais das duas, abaixou a voz e sussurrou:
— Cuidado com essa menina… Valentina.
Ela tem algo que vocês nunca tiveram.
Vittória arqueou o rosto, insultada.
— E o que seria? — ela chiou.
Helena deu um sorriso pequeno, perigoso:
— Ele.
O tempo parou.
Isabella sufocou um soluço.
Vittória perdeu o ar.
Helena ergueu a taça novamente, brindando sozinha.
— Ah… como eu adoro bailes. Sempre revelam quem realmente está mandando.
E virou-se, caminhando pelo salão como se fosse a única a saber o final da história.
Rafael puxou Valentina para longe da pista de dança.
Ele não estava respirando direito.
Ela estava respirando demais.
E o salão inteiro estava prestes a entrar em combustão.
Mas o general Montenegro não perdia tempo com terremotos internos.
Ele tinha um objetivo.
Os investidores japoneses.
E, por um milagre que só o destino ousaria escrever, os três representantes do grupo Yamamoto estavam reunidos próximos ao bar de cristal, acompanhados de tradutores, assessores e duas taças de saquê cuidadosamente posicionadas.
Rafael ajeitou o paletó, recobrou a postura impecável e disse:
— Venha. Eles estão esperando.
Inocente.
Cruel.
Perfeita.
— Doramas.
Rafael piscou.
Ele PRECISOU piscar.
— O quê?
— Doramas. — ela repetiu, segurando o riso. — Eu amo assistir.
Ele ficou olhando para ela como se tivesse acabado de ouvir que alguém aprendeu a pilotar um avião vendo tutorial no YouTube.
— D-doramas? — ele repetiu, completamente incrédulo. — Você aprendeu japonês… assistindo doramas?
— Sim. — ela respondeu, cheia de razão. — Ué… você queria que eu aprendesse como? Não tive tempo de ir para o Japão ainda.
Rafael piscou de novo.
Moreira, ao lado, disfarçou um ataque de tosse para não rir.
Rafael passou a mão no rosto.
— Senhor… que esse baile não saia do controle…
Valentina riu e, para disfarçar a tensão, ajeitou o terno dele — aquele gesto íntimo que ninguém deveria fazer, muito menos ali.
— Querido… todos estão olhando. — ela sussurrou, doce e ácida. — Você está surtando.
Rafael parou.
Mudou a expressão como quem recoloca uma máscara de gelo.
— Eu não estou surtando. — disse, firme. — Só estou tentando entender como minha esposa fala japonês… porque assistiu doramas.
Valentina ergueu o queixo, vitoriosa:
— Eu sou demais, não sou?
E antes que ele recuperasse o controle total, ela completou:
— Se você fechar o acordo antes do prazo… podemos anunciar nosso divórcio mais cedo também. Ficamos livres um do outro antes do previsto.
O sorriso dele morreu.
A expressão fechou.
A temperatura caiu.
Ele deu um passo para trás.
E sem dizer uma palavra…
…simplesmente se afastou dela.
Deixou Valentina sozinha no meio do salão, ainda brilhando como uma estrela — mas com um furacão novo se formando dentro dela.
O baile seguia.
Mas agora…
OS DOIS
estavam oficialmente
em guerra silenciosa.

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