O salão do jantar estava perfeito demais.
Guardanapos dobrados com precisão militar.
Taças que refletiam luz como lâminas.
Velas altas iluminando rostos falsamente educados.
E, mesmo assim…
A mesa dos Montenegro parecia um campo minado.
Valentina caminhou até seu lugar sentindo o olhar de Rafael queimando em algum ponto atrás dela.
Bianca foi para outra mesa.
Lucas se acomodou ao lado de Rafael, como sempre observando tudo.
E então…
Os membros da família Montenegro começaram a se sentar.
Vittória apareceu como quem já tinha engolido meio litro de fel.
O rosto rígido.
O sorriso duro.
A aura dizendo: “Se eu pudesse, eu trocava as velas por tochas e incendiava essa garota aqui mesmo.”
Helena — a tia favorita do caos — chegou com o vestido brilhando e a risada escandalosa, pronta para saborear cada gota de drama.
E Enzo…
Ah, Enzo.
Ele se sentou com aquela calma predadora, a taça na mão, os olhos pousados em Valentina como se estivesse analisando cada microexpressão dela — e cada ameaça ao redor.
O jantar começou.
Silêncio.
Apenas o som das talheres e das respirações tensas.
Então veio a entrada: lagostas inteiras, exuberantes, fumegantes.
Vittória ajeitou o guardanapo no colo com aquela elegância venenosa que ela achava que impressionava alguém.
Ela inclinou a cabeça para Valentina, sorrindo como quem prepara um golpe com seda e perfume.
— Você sabe o que é lagosta, minha querida Valentina? — perguntou com a voz doce e a intenção podre. — Imagino que em Harvard isso não era muito comum… não é o tipo de comida que os alunos estão acostumados.
Helena quase deixou escapar um “meu Deus, ela vai apanhar” de tanto segurar a risada.
Enzo parou o vinho no ar.
Rafael virou o rosto devagar, como se estivesse avaliando se valia a pena derrubar a própria mãe em pleno jantar.
Mas Valentina…
Ah, Valentina.
Ela se virou delicadamente para Vittória, cruzou os talheres, encostou o cotovelo na mesa — num gesto elegante, firme — e sorriu.
Um sorriso tão educado que doía.
— Harvard, não. — ela respondeu. — Mas na casa da minha família era normal comer lagosta.
Vittória piscou.
O sorriso congelou.
A mesa inteira ficou em silêncio por um segundo.
Valentina inclinou um pouco a cabeça, fingindo inocência:
— Acho que a universidade não chegou ao ponto de oferecer lagostas aos alunos, né, minha sogra?
— E olha que a mensalidade é bem cara…
Augusto Montenegro gargalhou.
GARGALHOU.
Um som profundo, inesperado, que fez metade do salão virar a cabeça.
— Essa foi boa. — ele elogiou, limpando o canto da boca. — Muito espirituosa, Valentina.
Helena quase caiu para trás de tanto rir.
— Deveria ter dormido sem essa minha cunhada — ela disse alto demais.
Vittória ficou lívida.
Enzo bebeu o vinho devagar, escondendo um sorriso satisfeito.
O jantar continuou depois da farpa elegante de Valentina, mas a mesa estava silenciosa — um daqueles silêncios tensos, educados, onde todo mundo sorri sem jamais mostrar os dentes.
Os garçons trouxeram o próximo prato.
Um rondelli de camarão com molho leve de vinho branco.
Elegante.
Simples.
Caríssimo.
E totalmente impossível para Valentina.
Ela não tocou nos talheres.
Não olhou para o prato.
— Não posso comer, minha sogra. — respondeu calmamente. — Mas não se preocupe… refinamento não depende de um prato. Depende de postura.
O talher de Vittória parou no ar.
Só por um segundo.
Mas parou.
Rafael não sorriu. Não reagiu. Apenas continuou comendo.
Mas a mão dele, sob a mesa, moveu-se meio centímetro mais perto da dela.
Instintivo.
Involuntário.
Absolutamente perigoso.
Os pratos continuaram sendo servidos para todos.
Para Valentina, um risoto simples — discreto, bonito, perfeito.
Ela agradeceu ao garçom num tom educado.
E Rafael, ainda olhando o próprio prato, murmurou:
— Avise-me da próxima vez.
Valentina piscou.
— Do quê?
— De alergias. — ele respondeu, sussurrando sem tirar os olhos da comida. — Não quero que algo aconteça a você em um ambiente como este.
Ela demorou dois segundos para responder.
— Achei que você não quisesse que acontecesse nada comigo em nenhum ambiente.
Rafael ergueu os olhos devagar.
Firme.
Direto.
Perigoso.
— Você acha errado?
Uma fisgada subiu pelo peito dela.
— Acho… confuso. — admitiu, quase num sopro.
— Eu também. — ele respondeu, e por um instante… parecia humano. Parecia verdadeiro. Parecia quebrado do mesmo jeito que ela estava.
O jantar seguiu.

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