O almoço avançava com a precisão silenciosa de algo muito bem ensaiado.
Não havia pressa.
Não havia ruído.
E, ainda assim, tudo ali era movimento.
Valentina percebeu cedo:
não estavam interessados apenas em Rafael Montenegro.
Estavam interessados nela.
Hana foi a primeira a puxar conversa.
Não de forma invasiva.
Não direta demais.
Do jeito certo.
Hana levou a taça aos lábios, observando o casal por cima da borda de cristal.
— Posso perguntar algo mais pessoal? — disse, com um sorriso leve.
— Claro. — Valentina respondeu.
— Onde vocês se conheceram?
Valentina ia responder.
Mas Rafael falou antes.
— Em Harvard. — disse, com naturalidade.
Todos os olhares se voltaram para ele.
— Ela estava defendendo uma tese empresarial. — continuou. — A postura. A convicção. A forma como sustentava cada argumento… foi isso que me chamou atenção.
Ele virou o rosto para Valentina.
E, pela primeira vez desde que haviam se sentado à mesa, não parecia apenas estratégico.
Valentina sustentou o olhar dele por um segundo a mais do que o necessário.
Hana respirou fundo, quase suspirando.
— E quem tomou a iniciativa? — perguntou, com um brilho curioso nos olhos.
Rafael não respondeu de imediato.
Sorriu de leve.
Um sorriso raro. Contido. Quase perigoso.
— Eu. — disse. — Ela parecia inalcançável.
— Havia muitos homens ao redor dela. Interessados. — fez uma pausa breve. — Então decidi agir.
Ele voltou a olhar para Valentina.
— Fui até ela.
Por um instante, Valentina esqueceu onde estava.
Esqueceu a mesa.
As avaliações.
O jogo.
O sorriso dele a desarmou.
Hana levou a mão ao peito, teatral, brincando:
— Ai, ai… — disse, rindo baixo. — O amor é tão bonito quando é puro.
Valentina percebeu o tom.
A atuação.
O teste.
O sorriso dela se apagou com a mesma elegância com que surgira. Ela baixou os olhos, voltou a atenção para o prato, retomando a postura controlada.
Akemi observava em silêncio.
Até que falou, com voz serena, quase pensativa:
— Interessante. — disse. — Relações que começam assim costumam revelar muito sobre caráter.
Rafael voltou à neutralidade.
Valentina continuou comendo.
E Hana, agora, observava os dois com um interesse renovado.
Akemi entrou na conversa novamente com suavidade.
— A senhora é advogada, não é? — perguntou a Valentina, com interesse genuíno.
— Sou. — Valentina confirmou. — Direito empresarial.
Akemi sorriu de leve.
— Deve ser uma profissão exigente. — comentou. — Imagino que seja difícil ver um erro… e simplesmente ignorá-lo.
Valentina soltou um pequeno riso.
— É impossível. — respondeu. — Mas aprendi que nem todo erro precisa ser combatido no mesmo momento.
Akemi assentiu.
— Discernimento. — disse. — Uma qualidade rara.
Rafael continuava atento.
Quando o garçom se aproximou para servir novamente, ele falou antes que Valentina precisasse reagir:
— Para ela, a opção sem frutos do mar.
Sem explicação.
Sem espetáculo.
O gesto passou rápido.
Mas não despercebido.
Valentina virou o rosto para ele.
— Obrigada. — murmurou.
— Claro. — ele respondeu, no mesmo tom baixo.
Yamamoto observava tudo em silêncio.
Até então, havia falado apenas com Rafael sobre mercado, cenários globais, mudanças de comportamento empresarial.
Nada de fusões.
Nada de promessas.
Agora, resolveu olhar diretamente para Valentina.
— Seu nome apareceu muito cedo em sua trajetória. — disse. — Isso costuma acontecer com pessoas… resilientes.
Valentina sentiu o impacto.
Sabia o que vinha.
Um sorriso educado.
Indecifrável.
— Obrigada, Hana. — respondeu.– Adorei te conhecer.
Hana sustentou o olhar por um segundo a mais.
Depois sorriu novamente.
— Nos vemos depois.
As despedidas foram breves.
Sem fotos.
Sem imprensa.
Sem encenação.
Quando saíram do restaurante e o carro já os aguardava, Rafael entrou primeiro e esperou Valentina se acomodar antes de fechar a porta.
O veículo começou a se mover.
Só então ele falou:
— Você foi bem.
Valentina não respondeu de imediato.
Olhou pela janela por alguns segundos, como se organizasse pensamentos que ainda não pretendia dividir.
— O almoço não terminou ali. — disse por fim.
Rafael virou o rosto.
— Não?
Ela o encarou agora.
Havia algo novo no olhar dela.
Não triunfo.
Leitura.
— Não. — respondeu. — Só começou.
Rafael a observou em silêncio.
— O que você percebeu? — perguntou, direto.
Valentina sorriu de canto.
— Depois. — disse. — Para agradar o senhor Yamamoto… teremos que passar por Hana.
Rafael franziu levemente a testa.
— Por quê? — perguntou. — Se a esposa dele é Akemi.
Valentina riu baixo e balançou a cabeça de um lado para o outro.
— Tenho que te apresentar um dorama qualquer dia desses.
O carro seguiu em silêncio.
Mas, pela primeira vez desde o início daquela negociação…
Rafael Montenegro teve a nítida sensação de que Valentina havia lido a sala melhor do que ele.
E isso…
não o incomodou.
Intrigou.

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