Rafael caminhava à frente, os passos firmes, mas o corpo inteiro em alerta. O cheiro de antisséptico grudava na garganta. Cada porta fechada era uma ameaça. Cada número na parede, um atraso insuportável.
— É aqui. — disse a enfermeira, parando diante da porta.
Rafael assentiu uma única vez.
Empurrou a porta.
O quarto estava mergulhado numa quietude quase irreal.
Valentina estava deitada na cama, o corpo pequeno demais sob os lençóis claros. O rosto pálido contrastava com os hematomas que ainda não tinham tido tempo de amarelar. Um curativo branco cobria parte da testa. Fios saíam do corpo dela, conectados a monitores que piscavam em ritmos controlados — bip… bip… bip…
Rafael sentiu o impacto no peito antes mesmo de respirar.
E então viu.
Enzo estava sentado ao lado da cama.
Uma das mãos apoiada no joelho.
A outra… segurando a mão de Valentina.
Os dedos dela estavam entrelaçados aos dele com força suficiente para denunciar algo que Rafael não tinha visto antes.
O quarto esfriou.
Rafael deu um passo à frente.
O som do sapato no piso encerado pareceu alto demais naquele silêncio clínico.
Enzo ergueu o olhar devagar.
Não se levantou.
Não se explicou.
Não soltou a mão dela.
Apenas sustentou o olhar de Rafael.
— O que você está fazendo aqui? — Rafael perguntou.
A voz saiu baixa.
Perigosa.
Enzo respirou fundo antes de responder.
— Acompanhando. — disse. Simples. — Ela não ficou sozinha desde que chegou.
Rafael avançou mais um passo.
Agora estava perto o suficiente para ver detalhes que o vídeo não mostrara.
O leve tremor nos dedos dela.
A marca arroxeada no pescoço.
O curativo improvisado no braço.
E a mão dela…
presa à de Enzo como se fosse a única coisa sólida naquele mundo.
— Solta. — Rafael disse.
Não foi um pedido.
Enzo baixou o olhar para as mãos entrelaçadas.
Tentou puxar a dele com cuidado.
Valentina se mexeu imediatamente.
O aperto se intensificou.
Os dedos dela cravaram-se nos dele com força inesperada para alguém tão machucado.
— Não… — murmurou ela, ainda inconsciente. — Não me deixa sozinha…
A frase atravessou Rafael como um tiro silencioso.
Enzo congelou.
Olhou para Rafael por um segundo curto — rápido demais para ser descuido, longo demais para ser inocente.
Depois, voltou-se para ela.
— Calma, prima. — disse, a voz baixa, controlada, quase suave. — Eu estou aqui. Não vou a lugar nenhum.
Ele voltou a segurar a mão dela com firmeza.
O quarto pareceu encolher.
— O que você estava fazendo naquela parte da cidade?
— Eu estava perto da universidade. Tinha uma reunião num restaurante ali ao lado.
Rafael avançou de uma vez.
Agarrou Enzo pela gola da camisa e o puxou para cima da cadeira com brutalidade contida.
— Você quer que eu acredite nisso? — sussurrou, os olhos escuros demais. — Que você estava passando por acaso… e virou herói?
Enzo não reagiu com violência.
Não tentou se soltar de imediato.
Apenas inclinou a cabeça levemente, analisando o primo como quem avalia uma jogada previsível.
— Quer que eu minta? — respondeu.
O aperto de Rafael aumentou.
— Coincidência conveniente.
— Coincidência cruel. — Enzo corrigiu, sem elevar o tom. — Eu ia passar direto. Ia mandar mensagem depois. Um “oi, prima te vi hoje ".Nada além disso.
Fez uma pausa.
— Aí o carro preto entrou atirando.
Rafael sentiu o estômago revirar.
— Eu fui atrás. — Enzo continuou. — Liguei pra você. Várias vezes. Você não atendeu.
Silêncio.
— Quando cheguei no galpão… — Enzo concluiu — …ela já estava assim.
Rafael o empurrou contra a parede com força suficiente para fazer o impacto ecoar baixo.
— Você quer que eu acredite que salvou minha esposa porque eu não atendi o telefone?
Enzo sorriu.
Um sorriso curto. Preciso.
— Não. — respondeu. — Quero que você aceite que, se eu não tivesse passado por ali… ela estaria morta agora.
Rafael levantou o punho.
Parou a um centímetro do rosto dele.
O monitor cardíaco apitou mais rápido por um segundo.
Enzo não piscou.
— Faz isso. — disse. — Aqui. Agora. Na frente dela.
Rafael respirava pesado.
O quarto parecia pequeno demais para conter o que crescia ali.
Foi então que Valentina se mexeu novamente.
O rosto se contorceu num reflexo de dor.
— Não… — murmurou, confusa, os olhos ainda fechados. — Por favor… não…
Enzo saiu do aperto de Rafael sem dificuldade real.
Voltou-se imediatamente para a cama.
Segurou a mão dela de novo.
— Shh… — disse, inclinando-se levemente. — Tá tudo bem. Acabou. Eu tô aqui.

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