O quarto estava quieto demais. Quieto daquele jeito hospitalar, onde o silêncio não é paz — é vigilância. O ar cheirava a antisséptico e metal. As luzes estavam baixas, mas os monitores não dormiam. Bip… bip… bip… como um lembrete constante de que Valentina ainda estava ali… por um fio de normalidade.
Rafael também.
Ele permanecia sentado ao lado da cama há horas. A postura rígida tinha cedido em algum momento, não por relaxamento — por exaustão. O paletó estava pendurado na cadeira ao lado, a gravata jogada sem cuidado, como se ele tivesse arrancado de si qualquer coisa que lembrasse controle.
Mas os olhos… os olhos dele não tinham descanso.
A cada micro som, ele se endireitava.
A cada movimento mínimo do lençol, ele prendia a respiração.
E então… aconteceu.
Valentina se remexeu.
Primeiro, um movimento pequeno. Um ajuste de corpo. Um reflexo.
Rafael inclinou-se imediatamente, alerta, o coração batendo forte demais para alguém que jurava não se descontrolar.
— Valentina… — ele disse baixo, como se o nome pudesse trazê-la de volta sem assustá-la. — Ei… você tá segura. Eu tô aqui.
Ela não respondeu.
Mas a testa franziu.
O corpo dela tensionou como corda puxada.
E, num segundo, o movimento deixou de ser reflexo e virou… luta.
Valentina se agitou na cama, tentando se virar, como se quisesse escapar do próprio colchão. A respiração ficou irregular, rápida, desesperada. O monitor acusou o impacto: o bip acelerou, nervoso, diferente.
Rafael levantou no mesmo instante.
— Calma… calma, tá tudo bem… — Ele aproximou a mão dela devagar, com cuidado, como quem se aproxima de um animal ferido que pode morder por medo. — Eu tô aqui. Você tá segura agora.
Ele tocou na mão dela.
Por um breve instante… foi quase.
A pele estava fria. As unhas dela tremiam.
Rafael envolveu os dedos dela com firmeza suficiente para transmitir presença, não força. Não queria prender. Queria ancorar.
— Tá tudo bem. — repetiu, a voz mais baixa ainda. — Respira… comigo.
O que aconteceu em seguida foi tão rápido quanto cruel.
Valentina puxou a mão.
Não com delicadeza.
Com pânico.
Os dedos dela se abriram bruscamente, como se o toque queimasse. Como se a presença dele fosse ameaça. O corpo inteiro arqueou num impulso de defesa, e ela tentou se afastar da cama — da mão dele.
— Valentina! — Rafael chamou, instintivo, mas sem elevar a voz. O tom dele carregava urgência, não comando. — Ei, ei… olha pra mim… tá tudo bem…
Ela não olhou.
Ela respirava como se estivesse correndo. Como se estivesse presa de novo. Como se estivesse naquele galpão.
— Não… — murmurou, mas não era “não” para Rafael. Era “não” para a memória. — Não… por favor…
Rafael congelou por um segundo.
A frase era fraca, mas nítida.
Ela estava lá de novo.
E ele… estava aqui, assistindo o corpo dela tentar sobreviver outra vez.
Ele tocou de novo, mais devagar.
— Eu tô aqui… — sussurrou. — Você não tá sozinha.
O erro foi tentar.
Valentina se agitou mais.
O lençol se embaralhou. O braço com o acesso puxou, e ela fez um som de dor. O monitor apitou mais alto, alertando. A enfermeira entrou apressada junto com outra, e a médica veio logo atrás, já no modo intervenção.
— O que aconteceu? — perguntou a médica, rápida.
Rafael deu um passo atrás, como se aquele movimento fosse a única forma de não piorar.
— Ela… começou a se agitar. — disse baixo. — Eu só tentei…
A médica olhou para Valentina e entendeu tudo num segundo.
Trauma.
O corpo reagindo.
A mente repetindo.
— Segura o braço dela com cuidado. — ordenou às enfermeiras. — Sem força excessiva. Sem susto. Ela está em pânico.
Valentina chorava sem choro. Os olhos permaneciam fechados, mas o rosto estava contorcido, como se enxergasse uma coisa horrível por dentro.
— Não… não… — repetia, como uma oração quebrada.
Rafael ficou parado. Não por falta de ação. Por uma ordem invisível que o esmagava:
Se eu me movo… eu pioro.
A médica preparou a seringa.
— Vamos sedar. — disse. — Ela não consegue voltar sozinha agora.
Rafael abriu a boca para dizer alguma coisa. Fechou.
Porque que direito ele tinha de questionar?
Ela estava se partindo ali.
A sedação entrou.
E, por alguns segundos, o quarto pareceu suspenso no tempo: as enfermeiras segurando, a médica observando, o monitor acelerado, e Rafael de pé… olhando a mulher dele se debatendo contra fantasmas.
Até que o corpo dela cedeu.
Devagar.
Como se o medo finalmente perdesse força por exaustão.
O som do monitor voltou ao ritmo comum: bip… bip… bip…
A médica respirou fundo e virou-se para Rafael.
— O cérebro dele não distinguiu que ela está salva senhor, o trauma foi grande e vai precisar de tempo para acalmar tudo.
Rafael não respondeu.
O olhar dele estava preso na mão de Valentina.
E, no entanto, era como se aquela mão tivesse acabado de empurrá-lo de um lugar que ele não sabia que queria ocupar.
A médica completou:
— Ela vai ficar bem senhor Montenegro, só precisa passar pelo tempo de cura.
Rafael sentiu o estômago afundar.

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