"César"
— O Caio morreu. Sofreu um acidente de carro.
A voz do outro lado da linha quase falhou na última palavra.
Eu não ouvia aquela voz há dez anos. Mais madura. Mais baixa. Mas ainda sim a mesma pessoa.
Júlia. Minha ex-namorada.
Por um instante, foi como se o tempo tivesse voltado e eu fosse jogado de volta para outra vida — uma que eu achava encerrada. Jamais imaginei que ouviria aquela voz de novo. Mas ali estava ela, atravessando o silêncio do meu apartamento.
Não soube o que responder, nem soube o que sentir. Dez anos era muito tempo para guardar mágoa, diante da noticia da morte de Caio, só tinha sobrado a indiferença.
— Quando? — perguntei, meio aéreo, tentando organizar os pensamentos.
— Faz três dias… — ela respirou fundo. — Eu não queria te ligar. Mas… não tenho escolha. Aconteceram algumas coisas. Eu preciso de ajuda.
A voz dela soava desesperada, ainda que tentasse manter firmeza. Júlia sempre foi orgulhosa. Se estava pedindo ajuda, era porque alguma coisa grave tinha acontecido, além da morte de Caio.
Fechei os olhos por um segundo.
A minha vida também não estava estável. Eu tinha acabado de chegar em casa. Ainda estava tentando digerir tudo o que tinha acontecido com Diana — o acidente, a gravidez, o surto do meu pai ao descobrir. Minha família parecia prestes a explodir.
— Júlia… — comecei, passando a mão pelo rosto. — Eu não sei se posso ajudar. Não sei se é uma boa ideia. É um momento complicado na minha família.
Silêncio.
Ouvi uma fungada. Ela chorava, é claro, tinha acabado de perder o marido.
A última vez que eu tinha visto Júlia e Caio, eu tinha invadido a festa de casamento e dado um soco nele na frente dos convidados. Estava bêbado, um dos únicos momentos da minha vida em que me embriaguei. Depois daquele dia, nunca mais bebi.
— Eu estou grávida.
A frase veio baixa. Quase quebrada.
Senti o ar faltar por um segundo. Talvez não fosse tão indiferente assim.
As lembranças emergiram sem controle. Caio era meu melhor amigo. Um irmão que encontrei em um garoto deslocado na faculdade. Eu já era emocionalmente distante da minha família. Por um tempo, eles dois foram a minha família.
A culpa me atingiu. Não por eles. Pela minha própria família. Meus irmãos.
Na minha própria casa, eu tinha sido omisso por tempo demais. Subestimei o poder do meu pai. Deixei que decisões fossem tomadas sem confronto. Fiquei alheio enquanto as coisas desmoronavam.
E agora tudo parecia sair do controle de forma irreversível.
Entretanto, de certa forma, Augusto estava ao lado de Isabella, uma situação que eu jamais imaginei ver. Até Diana, aos poucos, tinha encontrado um caminho para si. E agora o passado retornava para em atormentar.
— Eu não queria te pedir ajuda — ela continuou. — Mas aconteceram coisas que eu não sabia… Minha mãe manteve a palavra de nunca mais falar comigo. E você sabe como é… os amigos, quando a desgraça chega, desaparecem.
Eu sabia.


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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com um cafajeste para me vingar do ex-marido
Ta demorando muito,um capítulo so por dia é extremamente pouco, da vontade de largar....
Até o capítulo 142, pularam alguns capítulos, agora vai p o 224...
Perfeito!...