"César"
— Você parece bem — Júlia comentou, com a voz baixa.
Não soube o que responder. Pensei que seria mais fácil depois de tantos anos, mas agora, diante dela, eu nem sabia o que dizer. Tinha sido um erro vir aqui.
Uma garçonete se aproximou e perguntou se iríamos pedir alguma coisa. Júlia respondeu que não, mas pelo olhar parecia estar com fome, pelo jeito ainda restava um resquício de orgulho.
— O prato da casa, por favor, e uma jarra de água — pedi sem consultar Júlia.
— Não precisa, realmente não estou com fome.
Claro que tudo aquilo podia ser uma encenação. Júlia era boa nisso. Em enganar, mentir olhando nos olhos.
— Nós não somos amigos. Eu vim te ajudar, então o melhor a fazer é me contar o que está acontecendo, como o Caio morreu extamente.
Ela olhou em volta, como se ponderasse até onde poderia ir.
— Não sei direito, a polícia disse que o carro saiu da estrada e caiu em um barranco. Não sei se ele perdeu o controle… ou se jogou o carro de propósito, também não sei se faz diferença saber a verdade — Podia sentir um tom de amargura na voz dela.
— Por que acha isso? O Caio que eu conheci não era uma pessoa que jogaria o carro de um barranco.
— Só quando fui arrumar as coisas dele, descobri as dívidas… Quer dizer, eu sabia que tínhamos muitas dívidas, mas a situação era pior do que eu imaginava. Então os primeiros agiotas vieram. Eu tenho um restaurante, é um pequeno negócio, o que garante pelo menos alguma comida… mas agora eles aparecem quase todos os dias para pegar o lucro do dia e as parcelas, que são altíssimas. Antes que eu consiga pagar alguma coisa, acho que nem estarei viva.
Júlia fez uma pausa. A garçonete apareceu com a comida, e ela começou a comer imediatamente. Era nítido que passava dificuldades, que estava com fome, mas ainda assim uma voz dentro de mim dizia para ir com cautela.
— Imagino que aquele dinheiro já tenha acabado faz tempo… — não consegui evitar falar do passado.
Ela me olhou, sem graça.
— O Caio ficou um pouco deslumbrado por um momento. Eu também. — Ela abaixou o olhar para o prato. — Sei lá… acho que pensamos que poderia durar para sempre, minha mãe estava certa desde o inicio, o que vem fácil vai fácil.
— De quanto você precisa para quitar as dívidas? — Perguntei indo direto ao ponto, podia dar o dinheiro e ir embora dali.
— É um valor alto demais.
— Júlia...
— Não foi exatamente para pedir dinheiro que eu pedi ajuda — Júlia enxugou uma lágrima que descia pelo rosto e não olhava na minha cara.
— É a única forma prática que vejo de te ajudar. Com dinheiro…
Júlia ficou em silêncio. Eu também. Comemos calados, cada um perdido nos próprios pensamentos. Encarei a mulher à minha frente. Houve um tempo em que achei que éramos apaixonados, fazendo planos juntos. Por um momento, naquela época, até pensei em casar.
O silêncio se estendeu até terminarmos de comer.
— Não sei o que quero, na verdade. Dinheiro seria bom, mas acho que não posso continuar aqui sozinha, sem a minha família. Preciso dar um jeito de minha mãe me perdoar. Não posso ter e criar esse filho nessas condições. Antes mesmo da morte do Caio eu já pensava nisso. Brigávamos muito. Ele não queria ir embora, achava que conseguiria dar um jeito, que voltaríamos a ter a mesma vida de antes… mas eu sabia que era impossível.
— Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Ele não acharia outro amigo idiota para bancá-lo e roubar.
Minhas palavras saíram mais duras do que eu pretendia. Júlia desviou o olhar novamente e checou as horas no celular.
— Eu preciso ir embora. Tem uma cobrança daqui a uma hora.
— Eu vou com você.
— Não precisa.
— Isso não está em discussão.
Júlia era uma mulher sozinha e grávida. Deixei nosso passado de lado. Nada daquilo importava mais. Era uma mulher que precisava da minha ajuda e eu ajudaria qualquer pessoa naquela situação.
Paguei a conta e fomos para o carro dela, já que eu não tinha um. O veículo era velho e parecia amassado em alguns pontos. Não perguntei nada. Júlia dirigiu em silêncio por um momento.
— Esse ponto da cidade é menor e meio abandonado, mas onde eu moro é mais movimentado, tem um lago bonito, é um ponto turistico do lugar. Nos fins de semana as pessoas vêm passar o dia quando está calor, e assim consigo alguns clientes.



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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com um cafajeste para me vingar do ex-marido
Ta demorando muito,um capítulo so por dia é extremamente pouco, da vontade de largar....
Até o capítulo 142, pularam alguns capítulos, agora vai p o 224...
Perfeito!...