"César"
O fundo do poço não parecia tão fundo. Eu tinha certeza de que era capaz de afundar ainda mais.
Camila, Júlia, meu passado e meu presente disputavam espaço na minha cabeça. Eu ficaria ali naquela sala, sentindo o efeito do uísque que Júlia me deu percorrer pelo corpo, mas a realidade era que a vida acontecia para além dos meus problemas pessoais.
Quando meu celular vibrou, era uma mensagem da minha avó: minha mãe estava em surto e, no momento, eu era o único filho que ainda conseguia chegar perto dela.
Saí do apartamento às pressas. Depois mandaria uma mensagem para Júlia avisando para onde tinha ido.
Minha mãe não conseguia processar a morte do meu pai e tinha colocado todas as forças e convicções em acusar Augusto pela morte dele. Era uma situação difícil, complexa e cansativa.
Quando cheguei à casa da minha avó, ela me esperava na sala, aflita.
— Oi, que está acontecendo? — perguntei, dando um beijo na minha avó.
— Sua mãe… ela não está bem. Quebrou algumas coisas no quarto e se escondeu no closet. Não sei mais o que faço com ela. Desde a morte do Marco Aurélio, ela não consegue ficar sem remédio, seja para dormir ou ficar calma durante o dia.
— Eu vou subir, ver se consigo falar com ela.
Subi para o quarto que era dos meus pais. Na vida, eu tinha entrado ali umas duas vezes, e ambas anos atrás, só lembrava que era um quarto enorme e pomposo, que combinava bem com o meu pai.
A porta estava encostada e, quando a abri, me deparei com uma confusão de coisas quebradas e jogadas pelo chão, objetos de decoração, roupas… parecia que uma bomba tinha estourado ali dentro.
— Mãe? — chamei baixo enquanto entrava no quarto.
Uma porta à direita levava ao closet.
— Mãe? A senhora está aqui?
Nada. Silêncio. O que me deixou preocupado.
Cheguei perto do closet e olhei para dentro. A bagunça se estendia ali também: roupas espalhadas por todos os lados.
— Mãe?
Chamei de novo e fui me aproximando do fundo, até encontrá-la deitada no meio da bagunça, acordada e chorando, agarrada a uma camisa do meu pai.
— Mãe… — abaixei ao lado dela. — O que houve? A senhora precisa sair daqui.
— Eu estava procurando essa camisa — ela respondeu baixinho, as lágrimas caindo pelo rosto. — Ele usou semana passada ainda… tem o cheiro dele.
A procura pela camisa não explicava aquela zona e as coisas quebradas, algo mais vinha acontecendo, e bateu um novo sentimento de culpa, por não estar ali ao lado da minha familia em um momento como aquele. Por pior que fosse nosso relacionamento não poderia deixar a minha mãe naquele estado.
Ajudei minha mãe a se levantar, e ela não opôs resistência, se apoiando em mim.
— Seu irmão já foi preso? Eu falei com o policial. Eles têm que prender logo o Augusto… ele pode fugir — minha mãe resmungou. — Ele tem que pagar pelo que fez com o pai… com o próprio pai.
— Mãe, já conversamos sobre isso…
— Não! Eu não me deixo enganar. Se você quer se fazer de cego, a consciência é sua. Mas eu não. Ele vai pagar, eu vi nos olhos dele, César. Eu sei do que ele é capaz.
Minha mãe falou mais alto, nervosa. A mulher que sempre mantinha uma postura altiva e orgulhosa ao lado do marido agora parecia derrotada, em frangalhos.

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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com um cafajeste para me vingar do ex-marido
Ta demorando muito,um capítulo so por dia é extremamente pouco, da vontade de largar....
Até o capítulo 142, pularam alguns capítulos, agora vai p o 224...
Perfeito!...