"César"
Acordei com a cabeça latejando, uma pressão que parecia querer explodir o crânio. O cansaço e o vinho haviam cobrado um preço alto demais. Tateei a penumbra do quarto, tentando organizar os fragmentos da noite anterior: o jantar, a conversa suave com Júlia e, então... o vazio.
— O que foi que eu fiz? — sussurrei para o silêncio do quarto. Júlia dormia profundamente ao meu lado.
Meus ombros nus e o lençol caído revelavam o óbvio. Eu me levantei de forma brusca, sentindo o mundo girar. Minha mente vasculhava cada canto da memória em busca de uma explicação, de um ponto de ruptura. Eu havia recuado todas as vezes; nunca tive a intenção de cruzar essa linha. Como pude ser tão fraco?
— César? — A voz de Júlia soou sonolenta. Ela se sentou, segurando o lençol contra o peito com um olhar vulnerável.
— O que nós fizemos? — Minha pergunta foi rude, seca. Vi a mágoa atravessar o rosto dela instantaneamente, mas não conseguia pensar direito com a cabeça doendo.
— Você não se lembra?
— Eu estou confuso. — Passei a mão pelo rosto, tentando afastar o embaço. As lembranças eram borrões de beijos e abraços, mas senti que não pareciam pertencer a ela. Na minha mente, o perfume era outro. O toque era outro.
— Confuso? — Ela se levantou, enrolando-se no lençol como se fosse uma armadura. — Nós transamos, César. Foi isso. Estávamos um pouco altos pelo álcool, admito, mas nada que justifique esse seu susto. Você me beijou. Você me quis e agora vai fingir que não se lembra? Eu esperava isso de qualquer um, menos de você.
— Me desculpa, mas realmente... É que eu realmente não... entendo...
Eu a encarava em silêncio, incapaz de unir as peças. Júlia, com lágrimas nos olhos, passou direto por mim e saiu do quarto. Precisei do choque da água gelada no chuveiro para tentar clarear as ideias. Sob o fluxo da água, tentei ser racional: havia acontecido. Eu não podia ser um escroto por um erro, fruto de uma fraqueza minha.
O cansaço, o vinho, tudo junto.
Saí do banho decidido a conversar, a entender o que aquilo significava para nós. Mas, ao bater na porta do quarto dela, o silêncio foi a única resposta. Quando entrei, percebi que Júlia havia partido de forma definitiva, levando a última mala.
— Você é um idiota, César — murmurei para as paredes vazias.
Fui até a cozinha buscar um remédio para a dor e preparar um café. Sobre o balcão, os restos do jantar: a louça suja e a garrafa de vinho com um resto no fundo. Apenas uma garrafa. Olhei para ela com desconfiança; um vinho excelente, caro, mas seria o suficiente para causar aquele apagão? O aroma era normal, as taças também.
Duas garrafas. Júlia tinha aberto duas garrafas, onde estava a outra? Procurei no lixo, mas não tinha nada, não sei porque me importva, mas importava, lembrava de duas garrafas de vinho e não sabia por que isso era importante.
A imagem de Camila apareceu na minha mente, nossa ultima briga. Senti o peso de uma traição, a pior de todas, mesmo que o caminho entre nós já estivesse em ruínas. Eu precisava resolver aquilo. Não podia viver sob o peso daquela indecisão.
Cheirei a garrafa de vinho e depois as taças. O cheiro era normal.
Eu me sentia um maluco dentro da minha própria casa. No fim, só havia dois caminhos possíveis para aceitar: ou eu tinha bebido demais e acabado dormindo com Júlia… e aquilo significava alguma coisa, ou tinha sido apenas um momento, um erro impulsivo. Guardei as taças e a garrafa de vinho.


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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com um cafajeste para me vingar do ex-marido
Ta demorando muito,um capítulo so por dia é extremamente pouco, da vontade de largar....
Até o capítulo 142, pularam alguns capítulos, agora vai p o 224...
Perfeito!...