Capítulo 134 — A traição
Lucas Avery
— ELA ME DROGOU, PORRA!!
O meu grito rasgou o ar daquele quarto com a violência de um trovão. O eco da minha voz reverberou pelas paredes e morreu em um silêncio denso, gélido e paralisante.
Natalie deu um passo involuntário para trás, os olhos verdes arregalados em puro choque, as mãos trêmulas suspensas no ar e a boca entreaberta, incapaz de articular qualquer som por alguns segundos inteiros. A respiração dela vinha curta, entrecortada.
— O quê...? — ela sussurrou, a voz quase inaudível, buscando ar nos pulmões. — Do que você está falando, Lucas? Como assim ela te drogou?!
Passei as duas mãos com força pelo rosto, esfregando a pele até queimar, sentindo o peso daquela memória asquerosa me esmagar como uma tonelada de concreto. Caminhei em passos pesados até a beirada da cama, me sentei no colchão e apoiei os cotovelos nas coxas, encarando o chão de madeira.
— Senta aqui, Natalie — pedi em um tom grave e exausto. — Senta e me escuta com atenção, porque eu vou te contar cada vírgula dessa história do início ao fim.
Natalie hesitou por meio segundo, mas caminhou devagar até a cama e se sentou ao meu lado, mantendo o corpo rígido e os olhos cravados em mim.
— Eu estou ouvindo, Lucas. Fala.
Soltei o ar devagar pelas narinas, organizando a mente para voltar àquele ano maldito.
— Faltavam exatamente dois dias para a apresentação final do projeto de graduação da faculdade. Eu estava voltando da biblioteca tarde da noite quando passei pelo corredor lateral do bloco de economia e dei de cara com a Diana. Ela estava encostada na parede aos beijos com o Jason, um cretino playboy da turma dela.
Natalie franziu o cenho, a expressão dura começando a dar lugar a uma surpresa nítida.
— A Diana estava traindo o Adrian descaradamente dentro do campus?
— Estava. E quando eu vi aquilo, o meu sangue ferveu — continuei, a voz saindo firme. — Eu avancei nos dois, encurralei o Jason contra os armários e olhei bem na cara da Diana. Eu disse com todas as letras: ela tinha exatamente quarenta e oito horas para procurar o Adrian e confessar a traição. Se ela não fizesse isso, eu mesmo iria até o meu irmão e abriria os olhos dele, porque eu jamais permitiria que ele fosse feito de palhaço por ninguém.
— E por que diabos você não foi direto até o meu irmão naquela mesma hora, Lucas?! — Natalie questionou, a angústia evidente no tom. — Por que esperar dois dias?!
Ergui os olhos para encará-la nos olhos verdes.
— Porque faltavam quarenta e oito horas para a entrega e apresentação do projeto de conclusão de curso, Nat! O prêmio de excelência acadêmica que estava em disputa era o mesmo troféu que o pai do Adrian tinha conquistado quando se formou naquela mesma instituição! Você sabe melhor do que qualquer um o peso daquilo para o Adrian. Ganhar aquele prêmio era uma questão de honra, era dar esse orgulho em memória ao pai dele. O Adrian viveu para aquele projeto. Ele é um estrategista nato, um gênio da administração que pega uma empresa em ruínas e transforma num império. Eu também estava concorrendo, claro, mas eu sabia muito bem que a estrutura e a viabilidade do projeto do Adrian eram infinitamente superiores ao meu. Eu tinha certeza que ela não contaria, que recuaria e que ia ficar pra mim contar. Mas eu não podia jogar a bomba da traição na cabeça dele na véspera do dia mais importante da sua vida e destruir o seu foco.
Natalie levou a mão ao peito, absorvendo o peso daquela decisão.
— Meu Deus... Você estava tentando proteger o momento dele.
— Eu estava tentando poupá-lo por dois dias — confirmei com um suspiro pesado. — Naquela mesma noite, voltei para a casa da fraternidade. A galera estava reunida na sala, peguei um copo de bebida que estava na bancada, tomei e subi para o meu quarto para dormir. Acontece que eu simplesmente apaguei. Eu não lembro de ter deitado, não lembro de ter sonhado... Foi um apagão absoluto.
— Foi pela exaustão do que havia acontecido?
— Antes fosse amor, mas não. Era a cretina usando um dos meus colegas de fraternidade pra aprontar comigo.

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