Capítulo 2 — Não haverá volta
Victoria Clark
O restante do turno passou como um borrão de humilhação e cansaço. Minhas pernas latejavam, e meus pés pareciam estar pegando fogo dentro dos saltos altos. Eu tentava focar apenas no trabalho, mas o olhar de desprezo de Adrian Foley parecia ter ficado impregnado na minha pele.
Quando finalmente deu duas da manhã e eu entrei no vestiário para me trocar, minha única vontade era sumir. Peguei meu celular e vi três chamadas perdidas do hospital. Meu coração parou.
Liguei de volta com as mãos tremendo tanto que quase derrubei o aparelho.
— Hospital Saint Jude, boa noite — a voz da recepcionista era profissional e fria.
— Aqui é Victoria Clark, sobrinha da Marie Clark. O que aconteceu? Por que me ligaram?
— Senhorita Clark, a paciente teve uma crise respiratória severa há uma hora. Ela foi estabilizada, mas o médico ordenou a transferência imediata para a unidade semi-intensiva. O problema é que o seu depósito de garantia expirou hoje. Se o pagamento não for efetuado em até vinte e quatro horas, teremos que transferi-la para o hospital público da rede municipal.
— Não! — meu grito ecoou no vestiário vazio. — Vocês não podem fazer isso. Ela não vai aguentar a viagem, e o atendimento lá é precário. Eu... eu vou conseguir o dinheiro. Eu prometo.
— Vinte e quatro horas, senhorita Clark.
Desliguei o telefone e senti as lágrimas queimarem meus olhos. Eu não tinha o dinheiro. Eu não tinha ninguém a quem pedir. O desespero era uma mão invisível apertando meu pescoço.
Saí pelos fundos do bar, sem sequer tirar a maquiagem pesada, apenas jogando meu casaco por cima do uniforme para esconder a vergonha. O beco onde os funcionários estacionavam era escuro e cheirava a chuva iminente.
Ao longe, vi um carro preto luxuoso parado, a porta do motorista aberta. Alguém estava inclinado contra o capô.
Conforme me aproximei, reconheci o terno grafite. Era Adrian Foley. Mas ele não parecia o homem controlado de horas atrás. Sua gravata estava frouxa, o cabelo impecável estava bagunçado e ele parecia lutar para se manter em pé.
"Ele está bêbado?", pensei, confusa. Ele parecia ter bebido apenas uma dose no bar.
Pensei em passar direto, em deixá-lo ali com sua arrogância e seu whisky caro. Mas a educação que a tia Marie me deu era mais forte do que meu rancor. E, honestamente, ele parecia estar passando mal de verdade.
— Senhor Foley? — chamei, parando a alguns metros.
Ele não respondeu. Apenas soltou um rosnado baixo e cambaleou. Ele ia cair de cara no asfalto.

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