Capítulo 1 — Pela tia Marie
Victoria Clark
O espartilho de cetim preto apertava minhas costelas com uma crueldade que eu já devia ter me acostumado, mas naquela noite, cada respiração parecia uma negociação. Eu me encarei no espelho manchado do vestiário do The Gilded Cage, sentindo o peso da maquiagem excessiva no rosto.
Meus lábios estavam pintados de um vermelho tão vibrante que parecia um sinal de alerta, e a saia... bom, a saia mal cumpria sua função de cobrir o que deveria.
Eu odiava esse lugar. Odiava o cheiro de perfume caro misturado com o suor do desespero, odiava o som das notas de cem dólares sendo jogadas sobre o balcão como se não fossem nada. Mas, acima de tudo, eu odiava o fato de que eu precisava de cada centavo daquelas gorjetas.
— Vic, você ainda está aqui? — Sara entrou no vestiário, o salto agulha estalando no piso de linóleo. — O Ricardo está soltando fumaça pelos ouvidos. O movimento na área VIP começou cedo hoje.
— Eu já vou, Sara. Só estava... tentando me convencer de que não vou vomitar no primeiro cliente que me olhar como se eu fosse um prato de entrada.
Sara suspirou e caminhou até mim, colocando a mão no meu ombro. O olhar dela suavizou.
— É pela sua tia, lembra? Só mais algumas semanas e você consegue quitar aquela parcela do tratamento. Foca no dinheiro, esquece os rostos. É o que eu faço.
Assenti, forçando um sorriso que não chegou aos meus olhos. "Pela tia Marie". Esse era o meu mantra. Minha tia foi a única pessoa que não desistiu de mim quando meus pais morreram naquele acidente de carro. Ela me deu uma casa, amor e um futuro. Agora que os pulmões dela estavam falhando, o mínimo que eu podia fazer era vender minha dignidade em parcelas de oito horas por noite.
Saí do vestiário e fui atingida pela onda de som do bar. O jazz moderno pulsava nas caixas de som, criando uma atmosfera de sofisticação que escondia o que aquele lugar realmente era: um mercado de luxo.
— Mesa quatro, Victoria. Agora! — Ricardo, o gerente que parecia ter prazer em nos diminuir, sibilou no meu ouvido enquanto passava. — E limpe esse desânimo do rosto. Os cavalheiros lá dentro pagam por entretenimento, não por uma tragédia grega.
Engoli o insulto, ajeitei a bandeja pesada de prata e caminhei em direção à área isolada por cordas de veludo. É ali que o dinheiro de verdade circulava. E onde o perigo também morava.
Ao entrar no lounge VIP, o ar parecia mudar. Era mais frio, mais denso. Meus olhos foram atraídos quase que magneticamente para o centro do ambiente. Sentado em uma poltrona de couro que parecia um trono, estava um homem que parecia ter sido esculpido em granito.
Adrian Foley.
— Sinto muito, senhor. Foi um acidente, eu vou... — Peguei o guardanapo de pano da bandeja, me inclinando para secar o pulso dele.
— Não toque em mim — ele cortou. As palavras foram ditas com uma calma assustadora, mas o impacto foi como um tapa. — Apenas termine de servir e desapareça da minha vista.
Senti o sangue subir para as minhas bochechas. A fúria começou a borbulhar no meu peito, lutando contra a necessidade de manter o emprego. Eu queria dizer que o whisky custava cem dólares, mas o caráter dele não valia um centavo.
Mas eu me calei. Pelo bem da tia Marie, eu servi a bebida em seu copo, baixei a cabeça e me retirei.
Antes que eu cruzasse a cortina de veludo, girei o corpo e olhei para trás uma última vez. Adrian limpava o pulso com uma lentidão cruel, sem sequer registrar minha existência. Eu apertei a bandeja contra o peito com tanta força que o metal machucou meus dedos.
— Tudo pela tia Maire… — murmurei meu mantra.
E era isso. Hoje eu engolia meu orgulho porque… “Era tudo pela tia Maire.”

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