Capítulo 204 — Não Posso Perder Você
Adrian Foley
Os dois minutos seguintes pareceram se arrastar por uma eternidade sufocante.
O motor roncava alto enquanto Joshua desviava dos carros no trânsito denso, cortando as faixas com a habilidade de quem sabia que cada fração de segundo significava a fronteira entre a vida e a morte.
O silêncio dentro daquele carro era pesado, quebrado apenas pela minha respiração entrecortada e pelo som abafado das buzinas ao redor.
Eu mantinha os olhos fixos na pista à frente, mas a minha mente não parava de projetar a lembrança do atentado. O som das sirenes que não chegaram a tempo de salvar os nossos pais, e a sensação dilacerante de desamparo que me marcou para sempre.
Eu era apenas um menino quando vi o meu mundo desmoronar. Eu passei a vida inteira jurando para mim mesmo que jamais deixaria essa história se repetir com as pessoas que eu amo.
A Natalie era a personificação viva daquela promessa. Ela não tinha o meu sangue, mas tinha toda a minha alma. Era a minha irmã em tudo o que a palavra significava. A garota que eu vi crescer, que me desafiava com aquele sorriso teimoso, que iluminava até o meu dia mais sombrio com a sua energia expansiva.
Pensar nela ferida, sozinha e assustada no meio de ferragens retorcidas fazia o meu peito queimar como se estivesse em chamas.
— Chegamos, senhor Foley — Joshua avisou, pisando no freio bruscamente na esquina da Montgomery com a Pine Street.
O cenário era desolador.
Luzes vermelhas e azuis cortavam o ar cinzento da tarde, girando em reflexos frenéticos nas fachadas envidraçadas dos prédios ao redor. O trânsito estava totalmente travado por viaturas da polícia e carros de bombeiros.
Havia um cordão de isolamento amarelo estendido por toda a extensão da calçada, onde dezenas de pedestres se aglomeravam em choque, sussurrando e apontando os celulares.
O caminhão baú de entregas estava parado no centro do cruzamento, com a frente amassada e os radiadores fumegando. Mas o estrago real estava prensado contra o poste de aço da esquina: o cupê da Natalie.
A lateral esquerda do esportivo tinha sido esmagada com uma violência brutal. A porta do motorista parecia uma folha de papel amassada, imprensada contra a coluna central do carro. Os vidros das janelas haviam estourado completamente, cobrindo o asfalto com uma camada cintilante de milhares de pequenos cacos, e os airbags brancos saltavam para fora da cabine, manchados de poeira e fuligem.
O ar simplesmente sumiu da minha garganta. Abri a porta do sedã e corri.
— Adrian, espera! — ouvi a voz de Augustus ecoar no banco de trás, acompanhada pelo barulho de Henry descendo logo em seguida, mas os meus ouvidos estavam tomados por um zumbido ensurdecedor.
Ignorei tudo. Corri pelo asfalto como se a minha própria vida dependesse daquele esforço, empurrando as pessoas que bloqueavam a passagem.
— Ei, senhor! Afaste-se! Área isolada! — um policial fardado avançou na minha direção, erguendo a mão aberta para bloquear o meu peito.
— Tira a porra da mão de mim! — gritei, cego de desespero, empurrando o braço do oficial com uma fúria desmedida. — É a minha irmã que está naquele carro!
O policial vacilou diante do meu olhar, surpreso pela agressividade, mas antes que ele tentasse puxar o taser ou me segurar, Henry e Augustus surgiram ao meu lado como duas muralhas, contendo os outros policiais com voz firme para abrir caminho.
Continuei correndo direto para a traseira da ambulância, que estava estacionada com as portas abertas a poucos metros dos destroços.
Dois paramédicos terminavam de ajustar os tirantes de segurança em uma prancha rígida sobre a maca com rodas.
O meu coração despencou em um abismo sem fundo.
Natalie estava deitada ali.
O corpo pequeno e frágil parecia imóvel sob o tecido térmico prateado. O colar cervical imobilizava o pescoço dela, e havia uma máscara de oxigênio cobrindo metade do seu rosto pálido. Um corte profundo na têmpora direita vertia um fio contínuo de sangue vermelho-vivo, manchando os fios loiros do cabelo dela e a borda da gaze cirúrgica, enquanto pequenos arranhões causados pelos estilhaços de vidro cobriam as suas bochechas e os seus braços nus.
Os olhos dela... aqueles olhos cheios de luz e expressividade estavam completamente fechados.
— Natalie... — o nome escapou dos meus lábios em um fio trêmulo e rouco.
Caí de joelhos no asfalto ao lado da maca, sem me importar com os pedaços de vidro que perfuravam o tecido da minha calça. O choque visual daquela cena me quebrou por inteiro. As lágrimas que eu vinha sufocando desde o primeiro som de impacto no telefone transbordaram de uma vez, lavando o meu rosto em um desespero incontrolável.


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