Capítulo 205 — O Peso da Culpa
Lucas Avery
O barulho dos pneus do cupê da Natalie cantando no asfalto ainda queimava nos meus ouvidos.
Fiquei plantado no meio-fio da calçada, vendo a traseira do carro dela sumir na esquina movimentada do Financial District. O peito subia e descia em um ritmo descompassado, a garganta seca como lixa. Passei as duas mãos pelos cabelos, puxando os fios com força em um rompante de pura raiva e frustração.
Como diabos uma tarde que era para ser nossa, um almoço planejado para matar a saudade e celebrar nós dois, tinha se transformado naquele pesadelo em menos de vinte minutos?
A imagem da Diana parada na entrada do restaurante com aquele sorriso cínico e a voz melosa no viva-voz do meu carro me dava vontade de socar a primeira parede que encontrasse pela frente.
Aquela mulher era um câncer. Uma desgraçada que tinha ressurgido das cinzas com o único propósito de envenenar tudo o que eu mais amava.
Dei meia-volta, marchando duro de volta para o interior do bistrô. Entrei a passos largos, ignorando os olhares curiosos de alguns clientes que haviam presenciado a confusão inicial. Parei diante do balcão da gerência.
— Cancelem a reserva da mesa doze — avisei no tom mais seco e cortante que consegui, deixando duas notas de cem dólares sobre a bancada de madeira para cobrir qualquer transtorno. — Fiquem com o troco.
Não esperei resposta. Peguei a chave do meu carro com o manobrista e saí acelerando pelas ruas.
O meu plano era simples: voltar para a sede da minha empresa, esfriar a cabeça por meia hora, dar um tempo para a poeira baixar e, no meio da tarde, aparecer na casa da Natalie com flores, com a comida que ela gostava e ficar de plantão até ela aceitar me ouvir.
Ela tinha o direito de estar furiosa, mas ela precisava entender que eu nunca, em hipótese alguma, daria espaço para a Diana destruir o que nós tínhamos.
Cheguei ao prédio corporativo no piloto automático. Cumprimentei a recepcionista apenas com um aceno mecânico de cabeça e peguei o elevador privativo até o meu andar.
Entrei na minha sala, tirei o paletó, jogando-o de lado enquanto me apoiava com as duas mãos na borda da minha mesa. Respirei fundo três vezes, tentando desacelerar as batidas desordenadas do coração.
Foi exatamente nesse instante que o celular no bolso da minha calça vibrou com uma intensidade ensurdecedora.
Puxei o aparelho na hora, o coração dando um salto na esperança de ser uma mensagem da Nat dizendo que já tinha chegado em casa. Mas o visor indicava o nome do Adrian.
Deslizei a tela para atender, já me preparando para o sermão:
— Adrian, a Natalie foi para o...
— O carro da Natalie bateu, Lucas! — a voz dele saiu rasgada pelo viva-voz, sem fôlego, rouca de um desespero que eu nunca havia presenciado naquele homem. — Eu estava na linha com ela! Ela estava descontrolada, chorando, acelerando, e eu ouvi o caminhão atingir o carro dela em cheio antes da ligação cair!
O mundo simplesmente desabou sob os meus pés.
O chão pareceu sumir em um abismo escuro. As paredes da minha sala giraram e a temperatura do meu corpo caiu para zero em uma fração de segundo. O sangue fugiu totalmente do meu rosto.
— O QUÊ?! — o grito saiu do fundo da minha garganta, cru, quebrado, carregado de um pavor visceral que me fez perder o equilíbrio por um instante. — Adrian, onde?! Onde ela está?! Pelo amor de Deus, me diz onde foi!
— Eu não sei! Ela não me disse a rua! — ele despejou no mesmo tom frenético. — Vou acionar o Alex agora mesmo para rastrear o veículo pelo sinal de emergência e pelos canais da polícia. Sai daí agora e vem em direção ao centro!
O clique seco encerrou a chamada.
— Adrian! ADRIAN! — berrei contra o telefone mudo.
Bati na tela de novo, tentando rediscar o número dele no mesmo segundo. O sinal deu ocupado na primeira tentativa. Tentei de novo. Ocupado.
— Não, não, não... por favor, meu Deus, não! — murmurei em transe, o suor frio escorrendo pela minha testa.
Sem pensar duas vezes, rolei a lista de contatos e apertei o número do Alex.
O telefone chamou uma vez. Duas. Três.
— Atende, porra! Atende!
— Lucas — a voz firme e controlada do Alex finalmente atendeu.
— O Adrian te ligou?! Ele falou com você?! — disparei em pânico, pegando a chave do carro sobre a mesa e já correndo para a porta do escritório, sem sequer me importar em pegar o casaco.
— Acabou de falar — Alex respondeu com agilidade militar. — Já puxamos as coordenadas de rádio aqui pela central de monitoramento.
— Me dá a localização agora, Alex! Onde ela bateu?! Onde ela tá?!
Antes que Alex pudesse responder, a voz concentrada do Chen soou alta no fundo da linha:
— Alex, a ambulância de resgate já removeu a Nat da Pine Street! Código amarelo, traumatismo craniano e contusões múltiplas! Ela está a caminho do Saint Francis Memorial Hospital agora!
— Saint Francis, Lucas! — Alex repassou a informação na hora. — Emergência do trauma. O Adrian já embarcou na ambulância com ela. Vai direto para lá!
— Estou indo! — joguei o celular no bolso e me enfiei no elevador.
A descida pareceu durar anos. Assim que as portas se abriram na garagem subterrânea, disparei pelo concreto até a minha vaga. Entrei no carro, liguei o motor em um tranco violento e arranquei rampa acima, cantando pneus na curva e quase batendo na cancela de saída.
O trajeto pelas ruas de São Francisco foi o pior pesadelo da minha existência.
O trânsito estava caótico, mas eu simplesmente não enxergava regras. Buzinei sem parar, joguei o carro pelas faixas estreitas, cortei cruzamentos no limite da segurança com o motor rugindo alto.
O desespero me sufocava. Bati com o punho fechado contra o volante uma, duas, três vezes, soltando um grito rouco e furioso que rasgou a cabine.

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