“Ettore Bianchi”
Liz assente sem pensar duas vezes.
Ela sabe que preciso de respostas. Sabe que finalmente tenho todas as peças do quebra-cabeça, mas ainda preciso entender como elas se encaixam.
— Vamos para a sala? — ela sugere, tirando os saltos e massageando os pés doloridos.
Assinto e a sigo. Quando nos acomodamos no sofá, um de frente para o outro, vejo a ansiedade estampada no rosto dela.
Por três anos, carreguei a dor de uma traição que nunca existiu. Agora é hora de entender cada detalhe de como fomos manipulados.
— Por que você nunca me contou antes? — pergunto, indo direto ao ponto. — O que te impedia de falar a verdade?
Liz respira fundo, como se estivesse se preparando para mergulhar em águas profundas. Dolorosas.
— Um contrato de confidencialidade — ela sussurra, brincando nervosamente com as mãos. — Victor me obrigou a assinar um contrato de confidencialidade.
Sinto meu sangue ferver.
— Ele disse que, se eu contasse qualquer coisa para você — sobre a conversa que tivemos, sobre… tudo o que aconteceu —, cumpriria todas as ameaças que havia feito para nos separar — explica, as lágrimas começando a escorrer.
— Que ameaças? — pergunto, embora tenha certeza de que não vou gostar da resposta.
— Ele disse que, se você recusasse Oxford por mim, iria se certificar de que nunca teria outra oportunidade — minha mulher responde. — Que destruiria suas chances profissionais, só para te ensinar uma lição.
A frieza calculada do meu pai me deixa nauseado.
— Também usou minha família — ela continua. — Disse que tinha informações sobre irregularidades na Montesi & Co., que usaria toda a influência dele para nos boicotar até não sobrar nada.
— Irregularidades que não existiam.
— Não sei — ela diz, abaixando o olhar. — Mas Victor tinha poder suficiente para inventar qualquer coisa.
— E você acreditou que ele faria isso?
— Ettore, eu tinha vinte e um anos — Liz me encara com os olhos cheios de lágrimas. — Conhecia a reputação do seu pai. Sabia que ele era capaz de qualquer coisa para conseguir o que queria. Como eu não ia acreditar?
Respiro fundo, passando a mão nos cabelos enquanto a observo. Ela tem razão. Meu pai sempre foi capaz de passar por cima de qualquer coisa para conseguir seus objetivos.
Só nunca imaginei que o próprio filho fosse incluído nisso.
— Seu pai disse que seria apenas uma formalidade — ela continua, a voz embargada. — Que, se eu realmente te amasse, manteria o segredo e deixaria você seguir seu destino. Que essa seria a prova do meu amor.
Apoio os cotovelos nos joelhos, digerindo tudo o que ouço. Liz era só uma garota apaixonada, sendo intimidada por um homem poderoso.
Se colocando em segundo plano em nome das pessoas que amava.
Irônico que, três anos depois, eu tenha agido exatamente como ele. Por vingança.

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