Acordo com a sensação de alguém acariciando meus cabelos.
— Piccola — a voz de Ettore sussurra no meu ouvido. — Acorda.
Abro os olhos devagar, ainda meio perdida. O quarto está escuro, com apenas uma fresta de luz do corredor entrando pela porta entreaberta.
— Ettore? — murmuro, sonolenta. — O que…?
— Bom dia, piccola — ele sussurra, beijando minha testa. — Preciso que você se arrume.
— Agora? — pergunto, piscando para tentar despertar. — Que horas são?
— Cinco e meia.
— Cinco e meia? — repito, me sentando na cama. — Ettore, é domingo. Por que você está me acordando a essa hora?
— Porque quero te levar a um lugar — diz, com um sorriso misterioso.
— Que lugar? — pergunto, franzindo as sobrancelhas.
— Surpresa — responde, indo até o closet.
Observo meu marido se afastando e um sorriso surge no meu rosto. Há algo diferente. Uma leveza que não via há muito tempo. Uma empolgação quase… infantil.
— Confia em mim? — ele pergunta, voltando com uma calça jeans e uma blusa de gola nas mãos.
— Sempre — respondo, aceitando as roupas.
— Então se arruma — diz, beijando rapidamente meus lábios. — Te espero lá embaixo. E não demora. A viagem será meio… demorada.
Ele sai do quarto, me deixando ainda mais curiosa. Demorada? Onde ele quer me levar às cinco e meia da manhã?
Me levanto e vou até o banheiro, ainda meio grogue. Escovo os dentes, lavo o rosto e prendo o cabelo num rabo de cavalo frouxo.
Quando finalmente termino de me arrumar e desço as escadas, encontro Ettore sentado na sala de estar.
— Pronta, Piccola? — pergunta, se levantando ao me ouvir.
— Pronta, amore mio — confirmo, arrumando a alça da bolsa no ombro.
Saímos de casa em silêncio, como dois fugitivos escapando antes que o mundo acorde.
As ruas de Milão estão desertas, com apenas alguns poucos carros e os primeiros trabalhadores do dia.
Ettore dirige tranquilamente, às vezes me lançando um olhar de soslaio, sorrindo. Claramente se divertindo com a minha curiosidade.
— Pelo menos me dá uma dica — insisto, quando já estamos na estrada, dirigindo em direção ao sul.
— Não — ele ri, pegando minha mão e entrelaçando nossos dedos. — Mas posso te contar por que decidi fazer isso.
— Por favor.
— Porque ontem, depois de tudo o que aconteceu, percebi uma coisa — explica, mantendo os olhos na estrada. — Passamos tanto tempo lidando com o passado que esquecemos de criar novas memórias felizes.
— E você quer criar uma nova memória a essa hora da manhã? — brinco.
— Quero criar a primeira memória da nossa nova vida — ele corrige, apertando minha mão. — Sem mentiras, sem segredos, sem… nada de ruim.
É impossível não sorrir com suas palavras. Como esse homem ainda consegue me surpreender depois de tantos anos?
O resto da viagem passa numa conversa tranquila. Falamos sobre planos para o futuro, sobre pequenas coisas do dia a dia, sobre sonhos que estavam guardados.

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