O trajeto até o local da recepção é feito em um silêncio sufocante.
Nenhum de nós ousa mencionar o beijo perigosamente próximo da realidade, mas meus lábios ainda formigam com a lembrança.
Desvio o olhar para Ettore, que mantém os olhos fixos na paisagem lá fora. Sua mandíbula travada revela que seus pensamentos estão tão tumultuados quanto os meus.
— Chegamos — ele anuncia quando o carro para diante do Villa Reale, um dos salões mais prestigiados de Milão.
O motorista abre a porta e Ettore desce primeiro, estendendo a mão para me ajudar. O marido atencioso para os paparazzi que nos esperam.
— Pronta para mais um ato? — ele murmura enquanto subimos os degraus de mármore, envolvendo seu braço na minha cintura.
— Tão pronta quanto deveria estar — respondo com um sorriso falso.
As portas do salão se abrem e somos recebidos por aplausos educados. O espaço foi transformado em um paraíso em tons de branco e dourado, com as mesmas flores da cerimônia.
Os convidados se aproximam para nos cumprimentar, rostos sorridentes escondendo curiosidade, perguntas e julgamentos.
Ettore me apresenta a tantas pessoas que perco a conta. Seus dedos permanecem firmemente entrelaçados nos meus, como se temesse que eu pudesse escapar.
— Vocês formam um casal lindo — comenta um dos membros do grupo Bianchi, sorrindo como se já calculasse os lucros mentalmente. — Uma união inesperada, mas certamente promissora.
— Às vezes, o destino tem um senso de humor peculiar — Ettore responde, sua mão possessivamente pousada nas minhas costas.
Max nos interrompe trazendo duas taças de champanhe.
— O cerimonialista está perguntando se estão prontos para a primeira dança — ele informa pouco depois, olhando para Ettore.
Meu estômago revira e minha taça para no meio do caminho. A primeira dança. Como se não bastasse o beijo, agora terei que estar nos braços dele novamente.
— Vamos? — Ettore pergunta, me oferecendo o braço.
Aceito automaticamente, sendo guiada até o centro da pista de dança. Uma música lenta e romântica começa a ecoar pelo salão.
Ele me segura pela cintura e minhas mãos param em seus ombros. Então começamos a dançar em uma sincronia perfeita, como se o tempo nunca tivesse passado.
— Você ainda dança bem — comento sem pensar, externando meus pensamentos.
— E você continua sendo uma ótima parceria de dança — ele responde, num tom mais suave do que estou acostumada a ouvir.
Dançamos em silêncio, embora nossos corpos pareçam se lembrar dos passos que praticamos tantas vezes antes.
— Sobre o beijo… — começo, incapaz de continuar fingindo que nada aconteceu.
— Foi apenas parte da atuação — ele corta rapidamente, mas seus olhos dizem o oposto da resposta ensaiada. — Acostume-se com essas… encenações.
Assinto, engolindo a decepção. Mas o que eu esperava? Flores? Uma declaração de amor renovado? Somos negócios agora. Nada mais.
Finalmente, a música termina e os convidados aplaudem. Mais uma atuação concluída com sucesso.
Durante longos minutos torturantes, somos o casal perfeito. Andamos pelo salão, conversamos com convidados, posamos para fotos… um espetáculo impecável e cansativo.
Na primeira oportunidade, finalmente consigo me sentar ao lado de Giulia para dar um descanso aos meus pés.
— Parece que a concorrência não respeita nem o dia do casamento — ela comenta, olhando em direção ao bar.
Sigo seu olhar e vejo Isabella, deslumbrante num vestido vermelho, conversando com Ettore. Ela acaricia o braço dele com uma intimidade que me incomoda de um jeito estranho.
— Não há concorrência quando não existe competição real — respondo, fingindo indiferença enquanto engulo o incômodo que me recuso a chamar de ciúme.
— Se você diz…
Do outro lado do salão, vejo Chiara sorrindo enquanto se aproxima de Ettore e Isabella.
Não é difícil entender que não será apenas o meu marido que vai testar minha sanidade nos próximos meses.
Estou cercada de inimigos — todos vestidos com seus melhores trajes e sorrindo como se não estivessem planejando a minha queda.
Giulia percebe a tensão nos meus ombros e tenta me distrair falando da nova coleção de verão.
Por alguns minutos, funciona. Até que o cheiro familiar invade meus sentidos, me deixando tensa novamente.
— Acho que já atuamos o bastante por hoje — a voz de Ettore sussurra no meu ouvido, enviando arrepios pela minha espinha. — Agora é hora da noite de núpcias, Sra. Bianchi.

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