“Ettore Bianchi”
Observo o rosto da minha mãe, deformado pela fúria mal contida, e sinto aquela velha exaustão conhecida. O mesmo olhar, a mesma tensão. As mesmas batalhas.
Liz alterna o olhar entre nós dois, claramente ponderando se deve sair ou enfrentar minha mãe de frente.
Mas agora, ciente de que Liz parou de recuar e se intimidar, não posso deixar isso acontecer.
Não aqui. Não com minha mãe prestes a colocá-la para fora com as próprias mãos.
— Liz, nos dê licença, por favor — digo, mantendo o tom calmo e profissional.
— Claro, volto depois.— ela responde, visivelmente insatisfeita. — Ou podemos discutir isso na nossa casa, marido.
Ela solta a provocação com um meio sorriso e segue até a porta. Ao passar por minha mãe, Chiara se afasta como se Liz fosse portadora de um vírus mortal.
A porta mal se fecha, e minha mãe já me encara com intensidade.
— Você não deveria estar em Turim? — pergunto, arqueando uma sobrancelha. — Não era esse o plano? Ficar longe das lembranças e se recuperar do luto?
— Era — ela responde, seca. — Mas voltei para impedir uma tragédia maior. E voltei para ficar.
Suspiro, indicando a cadeira à sua frente.
— Por favor, sente-se.
— Não consigo entender, Ettore — ela diz, ignorando o convite e caminhando pelo escritório. — O que seu pai diria se visse suas decisões?
— Meu pai já disse tudo o que tinha para dizer — retruco, soltando um suspiro exausto. — E agora está morto.
— Não fale dele assim! — ela rebate, indignada. — Victor construiu este império. Ele merece seu respeito!
— E ele tem. Mas como você acha que ele fez isso, mãe? — pergunto, inclinando-me para frente. — Com sentimentalismo? Ou com decisões estratégicas, mesmo quando impopulares?
Ela suspira pesadamente e, por fim, se deixa cair na cadeira.
— Filho, o que você está fazendo? — murmura, num tom mais contido. — Você passou anos longe, reconstruiu sua vida, virou o homem que sempre sonhei… e agora se casa com essa mulher que já te fez tanto mal? E ainda a traz para trabalhar aqui?
— É complicado, mãe.
— Então me diga que isso é vingança, Ettore. Porque qualquer outra explicação me parece loucura.
Levanto-me e caminho até a janela, evitando qualquer sinal que possa confirmar as palavras dela.
— Já disse, Liz e eu decidimos recomeçar — afirmo, repetindo a mentira do dia do casamento. — Trazê-la para a empresa foi uma decisão profissional.
— Por favor, Ettore — ela ri, sem humor. — Conheço meu filho. Isso não é sobre negócios. É sobre ela.
Respiro fundo, encarando a vista de Milão. A cidade segue viva, pulsante, completamente alheia ao caos deste escritório.
E ao que se passa dentro de mim.
— O que veio fazer aqui de verdade, mãe? — pergunto, voltando a encará-la.
Que isso não tem nada a ver com negócios. Que sim, estou fazendo tudo isso para que Liz sinta a mesma dor que senti.
Mas falar isso só daria mais munição para minha mãe tratá-la como lixo.
— Liz está aqui porque eu decidi — respondo, afastando o toque dela. — Ela vai gerar lucros. Como uma Bianchi. Não como uma Montesi.
Minha mãe suspira, percebendo que perdeu. Por enquanto.
— Muito bem, Ettore. Você é adulto. E agora é o presidente — diz, ajeitando a bolsa no ombro. — Só se lembre de quem esteve ao seu lado quando ela partiu seu coração.
Vai até a porta, mas para antes de sair.
— E de quem sempre quis o melhor para você — completa, olhando por cima do ombro. — Mesmo quando você se recusava a ouvir.
Quando a porta se fecha, me jogo na cadeira como quem acabou de sair de uma batalha. E, de certo modo, foi isso mesmo.
Meus olhos pousam nas pastas que Liz deixou sobre a mesa.
Eu devia estar analisando os desenhos, caçando falhas, brechas, qualquer indício de que cometi um erro ao trazê-la de volta.
Em vez disso, estou admirando os traços dela. Originais. Instigantes. Intensos.
Tão… Liz.
— Foco, Ettore — murmuro, fechando a pasta com força. — Ela não vai me quebrar duas vezes.

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