Uma semana se passou desde aquele dia caótico, desde aquela noite de farpas trocadas nas escadas. Sete dias de silêncio educado e distância proposital.
É como se tivéssemos estabelecido uma trégua não verbal, cada um mantendo-se em seu território.
Ettore no escritório, eu no quarto. No café da manhã, interpretamos nossos papéis com perfeição diante dos empregados e seguimos com vidas separadas que raramente se cruzam.
Na empresa, é a mesma coisa. Educação fria, profissionalismo exagerado. Como se aquela noite tivesse esgotado todas as emoções possíveis entre nós.
É estranho como um único dia caótico parece ter valido por sete dias monótonos. Como se o universo tivesse decidido nos dar um breve respiro antes da próxima tempestade.
E a próxima tempestade, aparentemente, é uma viagem de negócios à Suíça.
— Liz, essa blusa já está implorando por misericórdia — a voz de Giulia me arranca dos pensamentos.
Olho para a peça em minhas mãos, que de fato dobrei e desdobrei tantas vezes que agora está completamente amassada.
— Acabei me distraindo — murmuro, colocando-a na mala.
— Ainda digerindo a ideia de viajar sozinha com seu marido? — pergunta, dobrando mais uma blusa. — Por falar nisso, será que vocês vão sobreviver?
— Muito engraçado.
— Estou falando sério! — ela insiste, colocando a blusa na mala. — Vocês mal conseguem ficar na mesma sala sem que o ar fique pesado.
— É apenas uma viagem de trabalho — murmuro, tentando parecer mais despreocupada do que realmente estou. — Três dias, no máximo. Vamos à feira, cumprimos o cronograma e voltamos. Simples assim.
— Quando foi que algo envolvendo você e Ettore Bianchi foi simples? Vocês dois são complicados até respirando.
— É uma viagem profissional, Giu — insisto, revirando os olhos. — Não vai acontecer nada.
— Claro, porque nada nunca acontece em viagens de negócios — ela rebate, com um tom irônico. — Especialmente quando envolve um quarto de hotel e um casal com o histórico de vocês.
— Quartos separados — corrijo. — E não somos um casal, somos… sócios.
— Ah, entendi. É assim que estamos chamando agora?
Reviro os olhos novamente, decidindo não alimentar mais essa conversa. Giulia sempre teve essa capacidade irritante de apontar exatamente o que eu não quero enxergar.
Eu e Ettore. Sozinhos, em um lugar onde não vamos precisar fingir o tempo inteiro…
— Nada acontecerá — murmuro para mim mesma, mas é claro que Giulia ouve e solta uma risada descrente.
Meu celular vibra sobre a cômoda, interrompendo qualquer nova provocação. Pego o aparelho e encontro uma mensagem de Ettore.
“O motorista estará nos esperando em vinte minutos.”
— Por que ele não te avisou pessoalmente? — Giulia comenta, espiando a tela.
— É melhor assim — respondo, terminando de fechar a mala. — Sem rodeios.
— É, porque vocês dois já têm rodeios demais na vida — ela rebate, me ajudando com a mala. — Só tome cuidado, ok? Não deixe que ele te magoe mais do que já fez.


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