“Ettore Bianchi”
Observo Liz adormecida no assento ao lado, a cabeça levemente inclinada em minha direção. Ela respira suavemente, a expressão serena.
Parece tão tranquila agora, tão diferente da mulher tensa que embarcou há meia hora.
O avião balança com uma leve turbulência, fazendo-a se mover. Então, num gesto que me pega de surpresa, sua cabeça repousa sobre meu ombro.
Levanto a mão, instintivamente, para ajeitá-la e evitar que ela acorde com dor no pescoço, mas paro no meio do gesto.
— Por que estou me preocupando com isso? — murmuro, recuando a mão e voltando a pousá-la sobre a perna.
Alguns minutos depois, o piloto anuncia o início da descida.
— Liz — chamo, num tom baixo, tocando de leve seu braço. — Estamos chegando.
Ela abre os olhos lentamente, um pouco desorientada no primeiro momento. Quando percebe que estava praticamente deitada sobre mim, se afasta depressa.
— Desculpa — murmura, ajeitando-se no assento. — Nem percebi que dormi.
— Você parecia cansada — respondo com a neutralidade bem ensaiada. — Achei melhor não te acordar.
Um breve silêncio se instala entre nós, mas diferente do que nos acompanhou na última semana.
Ainda não é confortável — longe disso. Mas desde a proposta de trégua, ele parece menos cortante.
— Qual é o cronograma para hoje? — ela pergunta, tentando adotar um tom profissional enquanto arruma o cabelo.
— Hotel, descanso… temos o resto do dia para revisar a apresentação e nos preparar — explico, conferindo o relógio. — A feira começa só amanhã.
Ela assente e percebo um traço de alívio atravessando seu rosto.
Liz sempre foi assim: precisa de tempo para organizar os pensamentos, se preparar com antecedência. Algumas coisas não mudam, mesmo com os anos.
Após pegarmos nossas malas e seguirmos de táxi até o hotel, finalmente paramos em frente ao Grand Zurich.
— Bem-vindos ao Grand Zurich — cumprimenta a recepcionista com um sorriso educado.
— Temos uma reserva em nome de Bianchi — informo, entregando meu passaporte.
— Só um instante — diz a loira atrás do balcão, digitando rapidamente. — Suíte reservada para o senhor e a senhora Bianchi, com chegada prevista para hoje.
— Uma suíte? — Liz murmura ao meu lado, surpresa. — Pensei que seriam quartos separados.
A recepcionista olha de um para o outro, visivelmente confusa.
— Há algum problema com a reserva? — pergunta, educada.
— Não — respondo antes que Liz possa protestar. — Está tudo certo.
Ela assente, ainda com as sobrancelhas franzidas, mas continua com o check-in. Poucos minutos depois, nos entrega o cartão-chave do quarto.
No elevador, sozinhos, Liz me encara como se estivesse decidindo o melhor jeito de me enforcar.
— Uma suíte? — dispara, irritada. — Sério, Ettore? Isso é uma viagem de negócios!
— Era o que estava disponível — respondo, mantendo o tom neutro. — A feira lotou a cidade. Tivemos sorte de conseguir um quarto.
Ela me lança um olhar desconfiado, mas não insiste. Melhor assim.
Não tenho paciência — nem disposição — para explicar que não, isso não foi um jogo ou manipulação. Foi o que minha assistente conseguiu reservar com o pouco tempo que tínhamos.
Quando entramos na suíte, observo o espaço amplo e elegante. Sala de estar, um pequeno escritório, banheiro… e, claro, uma única cama.

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